domingo, 11 de março de 2018

Rio do Vale do Sol


Ruth Guimarães

No ano passado estive em janeiro no Vale do Paraíba, e era chuva que Deus dava, mas chuva mesmo, sem um momento de estiada, a água suja inundou a várzea, o bairro transformou as ruas em amostra da era primordial, as comunicações para os lados da Bocaina foram interrompidas. Rodaram todas as pontes, exceto as construídas por Euclides da Cunha. O leite deixou de descer das fazendas da Serra. Pessoal dos Macacos, das invernadas para além do Cachoeirão, ficou mais uma vez isolado nos seus píncaros inacessíveis. E era chuva que Deus dava, pródigo Alá. Nesse ano a água subiu até a laranjeira, e onde havia perfumadas flores e abelhas doiradas rodopiavam as folhas amarelas em torno das raízes que fora noiva do sol, nadavam as desaforadas traíras. E então neste ano, fui tarde para o Vale do Sol, meu Vale. Esperava que os belos dias tivessem vindo. E que me esperassem, apesar de brigados comigo, por um motivo que contarei depois, o pássaro, a manhã e a flor. Pois, amigos, era chuva que Deus dava, chuva e mais chuva, que entrou por fevereiro adentro, estragou o carnaval, molhou a presença e a paciência, impediu os passeios e ainda por cima não me deixou ir tomar o tal caldo de cana prometido em tempos que já lá vão pelo amigo Ditinho do Ciano (continua devendo). Afinal a temporada não ficou estragada de uma vez, por que arrumaram linhada e anzol, vara de bambu, banco, saco de estopa e chapéu de palha e os homens da casa acharam jeito de pescar na porta da cozinha, enchendo cestas e mais cestas de traíra da miúda e corimbatá e vindo todo o santo dia incomodar a gente com umas enormes fieiras de lambari, para fritar. Até que o esporte perdeu de vez a graça, depois de ter passado pelas variantes da pesca de peneira e das tarrafadas na água barrenta do campinho. E viemos embora. Entrementes, aconteceu a tragédia de Caraguatatuba, e agora leio que as águas do Paraíba continuam subindo. Rio, meu rio, do Vale do Sol, tornado monstruoso e semeando a morte pelo caminho. Que devora as colheitas do dourado arroz, apendoado, fazendo-as apodrecerem na lama. O que empurra com monstruosas mãos de água assassina as choças dos piraquaras. Mas não quero mais falar desses assuntos. O pássaro está perdido. A manhã está perdida. E está perdida a flor. Afinal nada novo.
Lucrécio, há mais de dois mil anos já afirmava que os deuses, se é que existiam, (ressalva dele) não se interessavam de maneira nenhuma pelos assuntos humanos.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Gente...


Ruth Guimarães

Aquele relógio da torre da igreja é horrível nunca está certo, mas assim mesmo, a cada cinco minutos lá estamos nós olhando para cima, conferindo as horas. O saibro canta sob os passos que vêm e vão, da menininha que corre, perninhas curtas, tortas, gordas, cheias de covinhas e de roscas: da moça de saltos, dos colegiais,a moça com a criança,os operários que vão para o almoço.
       A gente que passa varia.
Ora, são as mulheres com bolsas de compras, apressadas, mas não muito, havendo sempre tempo para uma boa prosa. Ora, à saída das escolas, os uniformes em azul e branco. As cores também mudam. De que cor é o branco da manhã clarinha, logo às primeiras horas, recém-levantada da cama do dia, a face ainda molhada de orvalho? De que cor é a cabeleira de sol, desnastrada pelo céu de água-marinha?
De que cor o dourado da manhã que adolesce. Os passantes não percebem. Não viram o broto que espia em cada nozinho dos ramos, nem as últimas azaleias  brancas escondidas no verde escuro das folhas. Nem que as onze horas, sorrateiramente se abriram no canteiro em forma de estrela. Nem que a terra sob as arvores fresca e cheirosa, como se o Criador tivesse acabado de fazê-la.
Mas não é isso. Claro que não é isso. Não é o ver, é o sentir. É o ser. Ou o deixar-de-ser.
        Quem passa está ocupado com o por vir e com o afazer. Está com pressa. Vai não sabe onde, buscar não descobriu o que, ansioso e agitado, pois ainda não aprendeu a lição a respeito da desimportância da vida.
Eu sei porque velho gosta de ficar no jardim da praça. Gente precisa de gente prá viver.

 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A obra de Ruth Guimarães no movimento regionalista brasileiro

O romance “Água Funda” se inscreve no movimento regionalista da chamada geração de 1945, que na realidade foi a terceira geração do modernismo no Brasil.

Didaticamente, a primeira geração é aquela que conhecemos como o grupo da Semana de Arte Moderna de 1922, com Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Osório César.

A segunda geração, que vai de 1930 a 1945, foi inaugurado por Rachel de Queiroz (com O Quinze, de 1930) e teve José Lins do Rego (com Menino de Engenho, de 1932), e Graciliano Ramos (com São Bernardo em 1934 e Vidas Secas, em 1938) entre seus principais nomes, na prosa. Na poesia, estão Vinícius de Moraes, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

Antes de passar para a terceira geração, à qual pertence Ruth Guimarães, é preciso entender o contexto mundial da época.

O ocidente, mal refeito da Primeira Guerra Mundial, com todas as mudanças geopolíticas que dela resultaram, estava mergulhado em outras desventuras trágicas – a migração maciça e a reconstrução dos países destruídos. Além disso, a queda da Bolsa de Nova York, em 1929, tinha abalado o mundo de tal forma que até as relações políticas estavam contaminadas pela economia. Naquele ano, o presidente brasileiro Washington Luís indicou como seu sucessor o então governador do estado de São Paulo, Júlio Prestes. A oposição era liderada por Getúlio Vargas. Júlio Prestes venceu, mas não levou. Getúlio, com apoio das famílias mais tradicionais e dominantes, liderou o movimento tenentista e assumiu o poder.

A literatura refletiu todas essas perturbações. E abandonou o viés romântico, assumindo um tratamento mais realista nas narrativas. Os escritores passaram a mostrar mais o homem perante sua condição social, enfatizando, sobretudo, a miséria, as favelas, a seca e a luta pela sobrevivência aliada ao descaso dos políticos. Não por acaso, a região nordestina era a mais enfocada – graças, especialmente, ao estonteante sucesso de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, um trabalho notoriamente pré-modernista.

O decênio de 1930, segundo Antonio Candido, representou uma arrancada do pensamento e da literatura. Comenta o crítico (falecido em maio de 2017) que o romance produzido nesse período se caracteriza pelo neonaturalismo e pela inspiração popular, retratando os dramas peculiares do país, tais como a decadência da aristocracia rural, principalmente dos senhores de engenho, e a consequente formação do proletariado, em José Lins do Rego; a luta do trabalhador, em Jorge Amado; a escravatura do trabalhador rural e o êxodo para as cidades, em José Américo de Almeida e Graciliano Ramos; a vida difícil das cidades em rápida transformação, em Érico Veríssimo.

Destaca-se, nesse período, ao lado da ficção, o ensaio histórico-sociológico. Um de seus maiores representantes é Gilberto Freyre, com Casa-Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos, e Nordeste (ainda nas palavras de Antonio Candido), obras nas quais segue as tendências do Modernismo, ao estudar o papel do negro, do índio e do colonizador na formação da sociedade ajustada às condições do meio tropical e da economia latifundiária. Igualmente importantes são Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda e Formação do Brasil Contemporâneo História Econômica do Brasil, de Caio Prado Júnior.

Com a instauração do Estado Novo ditatorial e antidemocrático, tem-se o ápice do Modernismo ideológico, e uma recrudescência do espiritualismo, estético e ideológico, na análise de Antonio Candido. Portanto, o decênio de 30 apresenta, no Brasil, sobretudo em seus últimos anos, intensa carga espiritualista. Oriundas do Simbolismo, do nacionalismo das pregações católicas de Jackson de Figueiredo, desenvolvem-se diversas tendências ideológicas e estéticas. Como exemplos dessas tendências, pode-se citar o romance introspectivo de Cornélio Pena, Fronteira, e de Lúcio Cardoso, Luz no Subsolo, Mãos Vazias, o romance social de Plínio Salgado, O Esperado, O Cavaleiro de Itararé, o romance dramático, de Octavio de Faria, Mundos Mortos, Caminhos da Vida. Na poesia, destacam-se Augusto Frederico Schmidt, de tendência neo-romântica, e Jorge de Lima e Murilo Mendes, de tendência católica. “O decênio de 30 nos aparece agora como um momento de equilíbrio entre a pesquisa local e as aspirações cosmopolitas, já novamente dissociadas em nossos dias de sectarismo estreito acotovelando-se com o formalismo”, esclarece Candido.

Como sabemos, a arte literária camufla, por meio da linguagem, toda uma ideologia, seja ela social, histórica ou cultural.

Foi em meio a esse contexto histórico, social e cultural, que aparece a geração modernista de 1946. Essa geração teve, na poesia, nomes como Cassiano Ricardo, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Raul Bopp.

Na prosa, surgiram Lygia Fagundes Telles, Guimarães Rosa e Ruth Guimarães. Aliás, esses três fizeram um lançamento conjunto em 1946, cada qual com seu livro – “Praia Viva”, “Sagarana” e “Água Funda”. Cyro dos Anjos, que havia lançado “O amanuense Belmiro”, em 1937, voltava à cena literária com “Abdias”, em 1945. Há extensa cobertura da imprensa da época, mostrando Cyro dos Anjos e Ruth Guimarães, em alegre conversa, durante o lançamento de “Abdias”, em São Paulo, em 1946.
Para a crítica literária, o regionalismo é um movimento superado.

Ora essa! A própria crítica literária está em processo de falência, já dizia Leyla Perrone-Moysés.

Os jornais trazem resenhas apenas dos livros mais vendidos (e dá-lhe autoajuda). A revista Veja publica semanalmente uma lista – também apenas dos mais vendidos, e 80% deles são livros estrangeiros. Não há mais crítica literária na imprensa, desde que se aposentaram Antonio Candido e Nelly Novaes Coelho e desde que morreram Álvaro Lins, Nelson Werneck Sodré e Wilson Martins.

Cito três críticos remanescentes: Silviano Santiago, imbuído de uma noção imperial de escolha, Marcelo Coelho, que tem talento e competência mas segue ditames da Folha de São Paulo, e João Batista Natali, também da Folha, também sensato, mas também Folha de São Paulo.

Esmiucei tudo isso no meu livro “Imprensa, Poder e Crítica”.

Dentro desse redemoinho, ou dessa rede de moinhos, Ruth Guimarães aparece, aos 26 anos, com um romance que instantaneamente chamou a atenção da crítica. Ah! Sim. Na época existia crítica.

Opinião de críticos

Antonio Candido louvou o romance. Vamos ouvir o que ele escreveu:

“Este livro exprime bem o equipamento cultural e a visão de mundo de Ruth Guimarães, prosadora de qualidade e conhecedora profunda da cultura popular brasileira. É um romance, mas escrito como se fosse prosa fiada, como se fosse narrativa caprichosa que vai indo e vindo ao sabor da memória, ao jeito dos contadores de casos. Esta primeira impressão é justa, mas não deve esconder do leitor o que há neste livro de composição deliberada, de técnica bastante complexa, rica em elipses, em saltos temporais, em subentendidos. O que à primeira vista pode parecer meio solto vai se revelando bem travejado, regido por um intuito fabulativo que dá ao todo a necessária coerência, sem a qual não se instaura a verossimilhança.

Isso, quanto ao modo de contar. Quanto à linguagem, a construção talvez seja ainda mais elaborada, porque Ruth Guimarães consegue produzir um discurso de tonalidade espontânea, mas de fato carregado de estilizações bem conduzidas. Aqui não há o desagradável cacoete de muitos regionalistas: o de querer imitar com ânimo de exotismo pitoresco os modismos caipiras foneticamente sugeridos, do tipo “bamo ino” por “vamos indo” ou “entonce num havera de sê?”. Nada disso em Água Funda, caracterizado pela elaboração arte-ficial de uma linguagem que obedece à disciplina da gramática e, ao mesmo tempo, parece sair da boca do povo rústico. Isso se chama literatura e consiste em inventar uma linguagem suspensa entre o popular e o erudito, fazendo do livro obra que tem o timbre das realizações cheias de personalidade.

A interpenetração popular-erudito existe na própria concepção do livro, que é a história de um pequeno grupo rural de onde emergem certos personagens selecionados, sobretudo o par Joca e Curiango, sendo, ao mesmo tempo, uma espécie de afloramento do estrato mágico e lendário. De tal maneira, que a história do par central pode ser lida tanto como conseqüência das vicissitudes comuns da vida, quanto como produto de forças misteriosas encarnadas nos mitos intemporais. Há superposição, da qual resulta uma dupla leitura, cuja última instância seriam figuras como a Mãe de Ouro, entidade perigosa do tipo das Iaras, que pode assumir formas diversas no populário e aparece aqui sob o aspecto sideral de luminosidade fatídica.

Essa comunicação das esferas, do real ao fantástico, enriquece o texto e está ligada ao próprio teor do discurso. De fato, o livro é narrado por alguém que não se identifica, dotado de perspectiva onisciente e, parecendo membro do grupo descrito, é capaz por isso mesmo de assumir uma taxa de credulidade que justifica as discretas invasões do pensamento mágico. Esta voz penetra todos os refolhos das pessoas e do mundo e, ao deixar suspensa a possibilidade do fantástico explicar o real, assegura, ao mesmo tempo, a integridade deste. E nós podemos sentir, assim, a realidade viva de uma região, com a sua natureza, os seus costumes, os seus tipos humanos e também a magia insinuante dos mistérios que a mitologia popular exprime.

Por isso, talvez sejam felizes entre todos os momentos em que o narrador fala diretamente, porque então sentimos a fusão da escritora culta e da voz que ela inventou para animar o relato. É o caso do começo do livro, por exemplo, e também de muitos outros trechos, como a descrição da missa campal.

O que estou procurando sugerir é a complexidade dessa narrativa despretensiosa, que sabe fundir os planos e passa com tanta maestria do individual ao coletivo, do natural ao social, do real ao mágico. Voltando ao começo, é bom insistir no fato de Ruth Guimarães ser não apenas uma escritora bem dotada para a ficção, mas uma autoridade nos estudos da cultura popular, cultura que em Água funda constitui verdadeira rede de sustentação. Livros da autora como Os filhos do medo, como os contos que compendiou, como o belo estudo infelizmente ainda inédito sobre o ciclo de Pedro Malasarte, Calidoscópio, mostram grande saber folclórico servido por uma expressão clara e elegante, própria dos bons escritores. O leitor verá, neste livro, que a fluência da narrativa, a felicidade dos achados estilísticos e a densidade humana do todo fazem da leitura uma experiência válida e um grande prazer. 

Nelson Werneck  Sodré admirou “Água Funda”. Vejam o que ele escreveu, num artigo chamado “O Velho Vale”:

Ruth Guimarães, em Água Funda, foi a narradora desse quadro de fundo das crenças e dos conhecimentos populares, na região em que o vale toma contato com o sul mineiro, ali mesmo onde, há tantos anos, que se contam como séculos, os bandeirantes procuravam a soleira fácil da Mantiqueira, para passagem à zona mineradora, onde o Paraíba, apertado pelos contrafortes de Quebra-Cangalha, se precipita nas corredeiras a que tomou o nome a cidadezinha depois  batizada de Valparaíba. Todo o conteúdo emocional e pungente, cheio de reminiscências dos mais velhos tempos e ungido da graça e da facilidade popular, foi captado, com inteligência e arte pela narradora, que os fixou numa obra que, constituindo-se um exemplo excelente de técnica literária, ficou profundamente ancorada nos motivos populares.
Esse  encantamento,  esse sortilégio profundo do vale, ainda quando os seus filhos se afastaram para outras zonas, ficam em suas memórias. E assim começam a surgir os escritores que, recordando-se das paisagens da infância  e da adolescência, recortam-nas com rigor e vivacidade, dando-lhe forma literária.

Guimarães Rosa o invejou. Ele escreveu uma dedicatória, no seu livro “Corpo de Baile”, dizendo a Ruth o seguinte:

“Ruth Guimarães, minha irmã, parenta minha, que escreve como uma fada escreveria”.

Alves Mota Sobrinho, em artigo publicado na Revista Ângulo, por ocasião do cinquentenário do lançamento de “Água Funda”, em 1996, escreveu:

Eu resumo “Água Funda” em três palavras: telúrico, ecológico e mítico.

“Água Funda” é telúrico, porque brota da terra.

Ecológico, porque as paisagens - física e humana - se transformam e também são transformadoras.

Mítico, porque mostra a busca da Mãe de Ouro, forte, inatingível, porque inexistente, fruto do imaginário popular.

Ruth, nos anos que se seguiram ao lançamento de “Água Funda”, foi princesa, nos jornais paulistas: Correio Paulistano, A Manhã, Folha de São Paulo, Diário de Notícias, A Gazeta.

Voltaria a ser notícia quatro anos depois, em 1950, com o lançamento de “Os Filhos do Medo”, uma pesquisa de fôlego que levou debaixo do braço para mostrar a Mário de Andrade, o Mário da Paulicéia Desvairada, o Mário de Macunaíma. 

O romance

O romance "Água Funda" retrata a região sul-mineira do início do século. É uma história de costumes, com a análise fundamental dos personagens e sua ligação com a terra, os conceitos de família, sociedade, amor e dinheiro, num momento da vida brasileira em que a máquina chegava para substituir os operários, os caminhões expulsavam das estradas as tropas de burros e o homem pobre não sabia muito bem como se estabelecer dentro dessa nova relação. A linha-mestra é o amor e a loucura do amor, ou a loucura do desamor. Todos os personagens são reais, e embora as situações específicas sejam fictícias, os acontecimentos se deram, precisamente como foram contados. E, como frequentemente acontece, ninguém aprendeu nada do seu significado. "Água Funda" é um retrato do Brasil, na corrente literária regionalista que teve como princípio o resgate do pensar brasileiro, e do sentir brasileiro.

As inovações de Água Funda

Água Funda é uma rapsódia sertaneja. Rapsódia é uma composição musical de temas populares. Isso nos leva à musicalidade na escrita de Ruth.

Além disso, foi uma obra pioneira em vários aspectos:

1) anotou o papel da mulher independente (antes de José Lins do Rego e Graciliano Ramos)

2) promoveu a transição para o mítico, de base folclórica, mais ou menos como Mário de Andrade fez em Macunaíma

3) fez o registro da identidade brasílica, do caipira paulista e mineiro – na esteira de Valdomiro Silveira, sobre quem escreveu em 1974 um livro a quatro mãos com Bernardo Elis, da Academia Brasileira de Letras. 

Uma curiosidade: o caipira acredita em praga. Ruth, que não era católica praticante, acreditava em praga.

A autora

Ruth Guimarães foi mulher de grande atrevimento diante da vida. Tinha o atrevimento dos inconformados, o atrevimento dos inquietos.

Uma mulher de grande força de trabalho. Produziu uma portentosa pesquisa, o “Dicionário de Mitologia Grega”, para a Editora Cultrix, em um ano, porque precisava comprar uma casa.

Mulher de princípios éticos e de retidão. Honestidade a toda prova, inclusive nas palavras. Solidária, ensinando o que sabia, inclusive mulheres pobres a produzirem artesanato como fonte de renda. Fraterna. Atendia, o dia inteiro, pessoas que batiam à sua porta, desde intelectuais para um dedo de prosa quanto mendigos em busca de um prato de comida. Carismática. Líder. Serena.

Encerro com uma pequena crônica sua, texto que, ao mesmo tempo que lhe revela o espírito, serve-lhe de epitáfio:

É julho
Ruth Guimarães

Quando esta crônica for lida, já estarei na chácara, em pleno Vale do Sol. É julho. É julho das noites límpidas, de lua líquida, de céu profundo, de estrelas geladas. É julho e a mangueira se enfolhou de novo e se cobriu de flores. Contra o luar, ela parece solene, grandona, misteriosa. Muito alta, toca as nuvens e as galáxias. Por ela roçam os anjos de asas imensas. De dia, ela perde em espessura, despojada da escuridão e ganha em juventude. Não mais joias dos astros, na cama de veludo e sombra. Seu toucado é feito de flores e abelhas. Está enfolhada para a festa nupcial, coberta de verde novo, e de pétalas antigas. O vento aí vem, enamorado, soprando manso, nas tardes finas. Ouro velho forra o chão, suntuoso tapete de desenhos inimitáveis. As abelhas voam zumbindo. Na florada da manga o mel é grosso, é forte, cheira bem.

Na chácara o sol se levanta cedo. Às sete da manhã já está de fora, gloriosamente, acabando de esfiapar um resto de neblina. E se reclina sobre a mangueira feliz, reverdecida, tonta. Quem o anuncia é a corruíra, que fez um ninho complicado nos ramos do maricá, depois que brigou com a pitangueira.

É julho. Jamais esmaece o verde da grama. Jamais esmaece o verde-oliva das laranjeiras cheirosas. Jamais esfria o raio de sol. Jamais empalidece o azul cobalto do sol. Jamais entristece a cançãozinha clara do Paraíba, murmurante entre as pedras, todo revestido de luz.

Mas as bananeiras de tronco roliço e palmas longas soltam grandes cachos, que vão granando e amadurecendo, como se não fosse julho. Mas os limoeiros perfumados têm flores e frutos a um tempo, num desperdício. Mas os sanhaços furam os mamões de casca dourada e polpa doce, macia, escorrendo melado, que os passarinhos desprezam e as vespas aproveitam. Mas as velhas goiabeiras, que já estão meio caducas, não esperam a chuva: as goiabas amadurecem, entre os vivas dos bem-te-vis e a zoeira dos marimbondos.

Há muito tempo, eu não ouvia os sinos. Aqui eu ouço os sinos. Ninguém me acredita. Mas é julho, é inverno, os morros vestem a florada roxa do capim-angola, as maitacas voam cedo para o mato, voltam num clamor, às cinco da tarde. Asas de andorinha riscam (é julho) o céu sereno. Elas daqui não se vão.

Da última vez que cheguei, foi com o repetido suspiro de alívio que me confiei à sovada cadeira de braços, entre paredes bem precisadas de pintura, coitadas! Havia de novo uma goteira. Deixem-me contar de outro jeito: havia uma nova goteira. Lá estava a mancha. À entrada, o degrau parece que me reconhece, estalou devagarinho, cumprimentando.  O espelho também me reconheceu. Diante dele não estava a estranha de outros reflexos. Precisei de andar descalça pela casa toda, pois na sapateira, como de costume, nenhum sapato, nem novo nem velho. Estariam por aí. Depois de vasculhar com uma vassoura, embaixo das camas, encontrei dois pés direitos de chinelo.

Qu’importa lá?

Aqui sou rainha, sou czar, sou Deus, e como amo esses chinelos doidos!

Então não é isso a felicidade?
  








Joaquim Maria Botelho, jornalista e professor, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC/SP e especialista em Jornalismo Internacional pela Universidade de Wisconsin, EUA. Foi presidente da UBE – União Brasileira de Escritores por três mandatos. Seu livro mais recente é o romance “O livro de Rovana”.

Acervo da Biblioteca Nacional de Brasília ganha mais de 100 livros de autores negros

O livro raro que estará disponível nesta semana é o Água Funda, primeiro romance de Ruth Guimarães. A edição que chega à biblioteca é datada de 1949.

Ruth foi a primeira autora negra a receber reconhecimento nacional. Água Funda mostra o universo caipira do Vale do Paraíba, remontando aos tempos da escravidão.

Maiores informações: https://www.agenciabrasilia.df.gov.br/2017/11/26/acervo-da-biblioteca-nacional-de-brasilia-ganha-mais-de-100-livros-de-autores-negros/

Os dois papudos

Aquele homem tinha um bom papo. Mas não é como se diz hoje em dia, “quem tem um bom papo é porque é bom de conversa.” Ele tinha mesmo era uma papada enorme embaixo do queixo. No fundo ele achava aquilo muito desagradável, mas em vez de viver arrasado, procurava esquecer seu problema. De dia, pegava firme no trabalho e de noite, cantava e tocava viola, sempre alegre.

Num domingo foi a uma festa em uma cidade vizinha. Como tinha que trabalhar na manhã seguinte, voltou para casa de madrugada. E lá vinha ele sozinho pela estrada, no meio da escuridão. Outro teria ficado com medo, mas ele não.

– Eu não devo nada para Deus, nem para ninguém, – pensava ele enquanto andava tranquilo. – Nada de mal vai me acontecer.

Só que de repente, um pouco mais adiante, ele viu um clarão esquisito, junto de uma árvore à beira da estrada. Chegou mais perto e parecia que tinha gente dançando e cantando em volta da árvore. Era uma roda, sabem do que? De anões, todos de barbas brancas, chapéus de pontas, calças com suspensórios e botas muito estranhas. A luz dos archotes não iluminava muito bem, dava impressão de coisa do outro mundo, de fantasma mesmo.

O homem beliscou o braço para ver se estava sonhando, mas os anões continuaram lá, dançando na maior animação. Ele não sabia o que era aquilo e, muito curioso, foi se aproximando da roda, até que os anões o viram. Agora não tinha mais jeito. Outro teria fugido, mas ele não. Tirou a viola da sacola e pôs-se a tocar, acompanhando a música. Logo estava dentro da roda, junto com todo mundo.

Os anões iam cantando:

Segunda e terça, quarta e quinta…

Segunda e terça, quarta e quinta…

Eles não paravam de repetir o tempo todo a mesma frase e o rapaz acompanhando na viola, até que ele achou tudo muito sem graça e completou:

Sexta e sábado, domingo também…

Sexta e sábado, domingo também…

Pelo menos agora era a semana inteira.

E não é que os anões adoraram a sua invenção? Até quase de manhãzinha ficaram pulando e cantando a nova música, ao som da viola do homem do papo grande. Quando o dia começou a clarear, antes de desaparecerem na floresta, os anões agradeceram ao homem e um deles disse:

– Por ter alegrado nossa festa, você merece uma recompensa. Pode pedir o que quiser.

– Bom, – ele respondeu -, meu desejo é me livrar dessa papada horrível.

Na mesma hora, um dos anões deu um pulo e vapt vupt, arrancou seu papo e o jogou no mato.

Pronto. O homem ficou com o pescoço lisinho, parecia outra pessoa. Voltou para casa todo feliz e quando alguém perguntava como tinha acontecido aquele milagre, ele ria, mas não contava. Acontece que ele tinha um amigo que também era papudo. E achou que para ele, tinha obrigação de contar, quem sabe ele poderia ter a mesma sorte.

Quando soube da história, o outro, que era muito ganancioso, deu risada dele:

– Mas como você é burro! O anão falou para você pedir o que quisesse, e em vez de querer riquezas sem fim, você só pensou em ficar sem o papo?

– É que isso era muito importante para mim, – respondeu o ex papudo.

– Eu, hein? – falou o atual papudo. – Com dinheiro a gente consegue tudo de importante na vida. Deixe comigo, que eu vou pedir a coisa certa para mim.

Naquela mesma noite o papudo foi até a árvore e lá estavam os anões na roda. Ele fez tudo o que o amigo havia feito, sem tirar, nem por, até que o sol começou a surgir no horizonte. Quando um anãozinho perguntou o que ele queria como pagamento, o homem respondeu:

– Eu quero o que meu amigo recusou.

E já ia continuar explicando que seu pedido era um montão de dinheiro, que o outro havia recusado, mas não deu tempo.

Assim que ouviu a primeira frase, o anãozinho abaixou no chão, pegou o papo do amigo que ainda estava lá e, vapt, vupt, grudou-o embaixo do papo do homem ganancioso.

– Pois tome o papo que seu amigo não quis, disse o anãozinho antes de sumir com os outros na floresta.

Daquele dia em diante, o homem carregou aquele peso enorme no pescoço e ficou conhecido em toda a região como o homem que trocou a sorte por um papo dobrado.









Esse conto foi inspirado no original “Os dois papudos” in Lendas e fábulas do Brasil. Ruth Guimarães (org.) S. Paulo, Cultrix, 1968 (MCMLXVIII), pág. 87.

CORDEL NA REDE - Minha homenagem a Ruth Guimarães (1920-2014)

Em meu livro Breve história da Literatura de Cordel (Claridade, 2010), há um capítulo — o meu favorito — chamado Nordeste medieval. Abro com um resumo da lenda do Rei Ricardo Coração de Leão, baseado no artigo Ricardo Coração de Leão, do livro Grandes enigmas da História (1975), da historiadora e folclorista Ruth Guimarães. O sugestivo subtítulo, Como se faz um herói popular, nos ajuda a compreender o processo de mitificação dos protagonistas do drama do cangaço, encenado no Nordeste brasileiro, a partir do século XVIII. É a minha homenagem a esta grande escritora, que rompeu fronteiras e deixou um legado que sobreviverá por muitas gerações.

Uma obscura lenda medieval, conservada pela tradição, ajuda a entender o processo de difusão e o prestígio alcançado pela poesia popular do Nordeste. Nela, o menestrel é figura de destaque. Refere-se a Ricardo Coração de Leão, rei inglês de origem normanda, herói de muitas canções de gesta, a despeito de ter sido, segundo os historiadores, um monarca movido pela impiedade. Ocupou o trono, após vencer numa batalha o rei Henrique II, seu pai, que, antes de morrer, lançou-lhe uma maldição. Ao ser coroado em 1189, afirmou, resoluto, que iria à Terra Santa defender o sepulcro de Cristo. O povo, em delírio, aclamou o rei que partia para uma cruzada. Não carece determo-nos em detalhes desta empreitada, na qual Ricardo mostrou-se um hábil guerreiro e um mau político. Promoveu banhos de sangue e semeou terror entre os muçulmanos. Colecionou inimigos, inclusive nas hostes cristãs, dentre eles o duque Leopoldo V, da Áustria.

No retorno à Inglaterra, sua embarcação, impelida pelas ondas, foi arremessada às costas do Adriático. Disfarçado, tentou atravessar a Áustria, porém, reconhecido, caiu prisioneiro. Seus homens foram trucidados. Os poucos sobreviventes, rotos e famintos, alcançaram a Inglaterra. Noticiaram a prisão do rei sem, contudo, indicar o local. A notícia semeou desespero entre as camadas populares, mas foi motivo de júbilo para o príncipe João Sem-Terra, o despótico irmão de Ricardo, que havia muito ambicionava o trono. Nesse período, lenda e realidade se enredam. Surge Robin Hood, um fora da lei de ascendência nobre, liderando um bando de salteadores que roubavam dos ricos e distribuíam aos pobres. Robin era também personagem de baladas e canções de gesta.

A desesperança já se apossava dos ingleses quando um jogral popular, Blondel de Nesle, igualmente de origem normanda, de posse de sua bandurra, resolve sair à procura de seu senhor. Galgou enormes distâncias, cantando à beira dos calabouços, levando aos prisioneiros o lenitivo de sua bela voz. Ao rei Ricardo era atribuído o dom da poesia. Em outros tempos compusera uma canção, que, por sua feição de diálogo, se assemelha a algumas modalidades do repente nordestino. Por sorte, o menestrel, em suas andanças pela Europa Central, deparou com a prisão de Durnstein, onde entoou justamente a cantiga composta pelo rei. A resposta veio de uma das torres, para alegria do jogral, que enfim encontrara seu amo.

De volta à Inglaterra, Blondel espalhou a notícia. O resgate foi pago, por imposição popular, contra a vontade do príncipe João. A tradição atribui ainda a Robin Hood e ao jogral Guilherme de Long Champ a árdua missão de levantar o dinheiro, exigido por Leopoldo V. Pago o resgate, Ricardo, de volta à Inglaterra, viu-se obrigado a retomar os combates, desta vez contra Felipe Augusto, da França, que reivindicava a Normandia.

Vitorioso, Ricardo desfrutaria de glória efêmera. Morreria, no cerco ao castelo de Limoges, abatido por uma flecha atirada por certo Gourdon. O rei buscava um tesouro enterrado no castelo, pois, de acordo com o direito feudal, lhe pertencia a metade. Marchara contra o senhor do castelo e perdera a vida. Os ocupantes do castelo, derrotados, foram todos enforcados. Gourdon, o assassino do rei, teve destino pior: foi esfolado vivo. O tesouro, nunca encontrado, reforçou as suspeitas de traição, e João Sem-Terra, para sempre identificado à vilania, foi apontado como o principal responsável pela tragédia.

A lenda do rei Ricardo mostra o processo de formação, na mentalidade coletiva, do mito do herói popular. Pelo mesmo processo passaram outros reis e heróis, a exemplo de Carlos Magno, cuja presença nas tradições populares do Brasil é motivo de estudos que vão além do folclore e da etnografia. Na base da cristalização do mito está o jogral, o bardo itinerante, o poeta do povo, encarregado de difundir e divulgar as façanhas dos heróis, que, conscientemente ou não, ele ajuda a fabricar.


Baiano de Riacho de Santana, Marco Haurélio é poeta popular, editor e folclorista. Em cordel, tem vários títulos editados, dentre os quais: Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo; História da Moura Torta e Os Três Conselhos Sagrados (Luzeiro). É autor, também, dos livros infantis A Lenda do Saci-Pererê e Traquinagens de João Grilo (Paulus); O Príncipe que Via defeito em Tudo (Acatu). Escreveu ainda Lendas do Folclore Capixaba (Nova Alexandria),As Babuchas de Abu Kasem (Conhecimento), A Megera Domada (recriado em cordel a partir do original de William Shakespeare) e O Conde de Monte Cristo(versão poética do romance de Alexandre Dumas), os dois últimos para a coleção Clássicos em Cordel, da Nova Alexandria, onde atuou como editor. Escreve toda quinta-feira para o blog da editora Nova Alexandria a coluna Cordel na rede.

A fada caipira

Sobre Ruth Guimarães e suas obras

Caio Henrique

Ruth Guimarães dizia que sofreu três vezes em sua vida. Primeiro, por ser mulher; segundo, por ser negra; e terceiro, por ser caipira. Foi romancista, cronista, contista, poetisa, teatróloga, jornalista, folclorista, pesquisadora, tradutora e professora. Publicou mais de 50 livros, que vão de romances a traduções e peças de teatro. Ruth tinha mil facetas e uma habilidade nata para contar histórias. É a única escritora latino-americana a ter uma obraOs filhos do medonum verbete da “Enciclópédie Française de la Pléiade”, publicada pela Editora Gallimard. Porém, nada seria se não fosse caipira. “Como Guimarães Rosa, para quem “o sertão é o mundo”, também para ela “ser caipira” era uma condição antes espiritual e ontológica do que exclusivamente regional”. Foi Guimarães Rosa que, em dedicatória, descreveu Ruth como “uma das pessoas mais simpáticas que já encontrei na vida; e que escreve como uma Fada escreveria”.

Nasceu e viveu em Cachoeira Paulista, cidade localizada às margens do rio Paraíba do Sul, na região do Vale do Paraíba, no estado de São Paulo. Orfã desde cedo, foi criada pela avó materna, ajudando a cuidar dos irmãos mais novos. Casou com seu primo, o fotógrafo José Botelho Neto, sendo mãe de nove filhos, três deles com síndrome de Alport. Não tinha nem 18 anos quando veio a São Paulo, trabalhou como datilógrafa e estudou na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), sendo aluna de Fidelino de Figueiredo e Roger Bastide. Frequentou a antiga farmácia Baruel, localizada na esquina da Rua Direita com a Praça da Sé, em São Paulo, no final dos anos 1940 e início de 1950. Ponto de encontro de intelectuais, a Baruel girava em torno do farmacêutico-chefe Amadeu de Queiroztambém escritorque recomendou a Ruth publicar seu primeiro livro, “Água Funda”. Foi discípula de Mario de Andrade. Colaborou com publicações famosas, como os jornais Folha de São Pauloonde intercalava suas crônicas com Cecília Meireles e Carlos Heitor Conye diversos outros no Rio de Janeiro e Porto Alegre. Foi professora de português na rede pública do estado de São Paulo, além de professora universitária em universidades do Vale do Paraíba. Teve tempo, ainda, de ser secretária de cultura em muitas cidades do Vale, além da já citada ocupação como integrante da Academia Paulista de Letras .

Viveu muito, porém, sobre ela mesma, disse pouco. Durante sua vida, raros são os comentários sobre sua obra ou sobre si mesma. Porém, é em uma de suas crônicas, que podemos ver quem realmente era Ruth Guimarães:

Ah! Eu conto histórias para quem nada exige, e para quem nada tem. Para aqueles que conheço: os ingênuos, os pobres, os ignaros, sem erudição nem filosofias. Sou um deles. Participo do seu mistério. Essa é a única humanidade disponível para mim. Quem me dera escrevesse com suficiente profundeza, mas claramente e simplesmente, para ser entendida pelos simples e ser o porta-voz dos seus anseios. Meu temário são as acontecências sem eco no mundo, mas que ajudam a explicar a vida e seus segredos, que talvez possam conter a alma imortal de cada um, seja do rústico, seja do letrado, com suas virtudes essenciais. (GUIMARÃES, 2007, apud BOTELHO, 2014, p.7).

Antônio (2015) define bem ao dizer que Ruth foi “uma voz de muitas vozes, para quem se pode dizer o que Manuel Bandeira escreveu a Mario de Andrade: sua vida continua na vida que você viveu.”. Sua obra é plural, assim como a vida dessa mulher que preferiu sempre se manter afastada da vida intelectual urbana, escolhendo continuar com seu povo de raízes negras e caipiras. Ruth Guimarães morreu aos 93 anos, em Cachoeira Paulista, devido a complicações geradas pela diabetes. Era dia 21 de maio de 2014.

Os demônios val-paraibenses

“Os Filhos do Medo” foi o primeiro livro de Ruth Guimarães, porém, o primeiro a ser publicado foi o romance “Água funda”. A obra foi para as prateleiras em 1946 pela Editora da Livraria Globolivraria tradicional de Porto Alegre que, mais tarde, em 1986, se uniria com a Rio Gráfica de Roberto Marinho–, tendo repercussão e sucesso de crítica. Foi a primeira obra de uma escritora negra a ter destaque no mundo literário. Teve uma segunda edição publicada, em 2003, pela Editora Nova Fronteiraadquirida pelo Grupo Ediouro em 2013revista pela autora e com prefácio de Antonio Candido. A obra se passa na fazenda “Olhos D’água”, local retratante do universo rural e caipira cuja Ruth Guimarães se tornou porta-voz e especialista em suas obras. Aqui vemos a junção do popular com o erudito, um romance histórico, passando por duas gerações que viveram naquele local, ancoradas em crendices, ditados e provérbios. É ficção, e não é. “É um romance, mas escrito como se fosse uma prosa afiada, como se fosse narrativa caprichosa que vai indo e vindo ao sabor da memória, ao jeito dos contadores de casos” escreve Candido. Curioso notar que o mesmo Antonio Candido, em 1946, em resenha crítica ao “Diário Associados”, diz que Ruth “refresca agradavelmente a nossa sensibilidade e revela uma escritora que poderá atingir um nível literário de primeira ordem.”
  
Em 1950, também pela Editora da Livraria Globo, agora apenas Editora Globo, “Os Filhos do Medo” é publicado. Tinha nos seus pouco mais de 230 páginas a documentação das manifestações do demônio, e do medo que ele trazia ao imaginário do povo radicado no Vale do Paraíba e sul de Minas Gerais. Na altura da publicação, Mario de Andrade já estava morto. Foi ele quem criticou, orientou e aconselhou Ruth na escrita de “Os Filhos do Medo”. Em duas cartas póstumas direcionadas ao grande representante do modernismo paulista, Ruth Guimarães ora se dirige a ele como mestre, ora como amigo: “Havia aprendido com você duas verdades: uma, que só tem direito de errar quem sabe o certo. A outra é que o certo eu mesma é que deveria encontrar. E eu procurei, padrinho Mário.”

Em “Os Filhos do Medo”, Ruth Guimarães analisa personagens demoníacos exclusivamente de procedência rural. Histórias, crenças e superstições oriundas de fazendas, arraias e periferias de centros urbanos. Cidadezinhas, vilarejos, antigos assentamentos que hoje não existem mais, esses foram os lugares os quais a autora escolheu para realizar sua pesquisa. A força das palavras de Ruth vão além de mero estudo acadêmico ou romance folclórico. “Os Filhos do Medo” é um livro com uma prosa particular, ficando no limiar entre pesquisa folclórica e narrativa. Como Roger Bastide (1951) muito bem coloca em resenha para o jornal O Estado de São Paulo, “o folclore de Ruth Guimarães é proveniente da literatura e não da etnografia ou da sociologia”. Consultando o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, podemos definir quatro palavras-chave dessa frase para entendermos a magnitude da obra de Ruth Guimarães.

Folclore: “1.conjunto de costumes, lendas, provérbios, manifestações artísticas em geral, preservando, através da tradição oral, por um povo ou grupo populacional; cultura popular, populário […]”;

Romance:”[…] 7. Lit prosa, mais ou menos longa, na qual se narram fatos imaginários, às vezes inspirados em histórias reais, cujo centro de interesse pode estar no relato de aventuras, no estudo de costumes ou tipos psicológicos, na crítica social.”;

Etnografía: “1.estudo descritivo das diversas etnias, de suas características antropológicas, sociais etc. 2. Registro descritivo da cultura”;

Sociologia: “1.estudo científico da organização e do funcionamento das sociedades humanas e das leis fundamentais que regem as relações sociais, as instituições”.

Romancistas têm a tendência de deturpar ou deformar a seu bel prazer tradições, tudo em prol da narrativa. Porém, estudiosos também possuem um distanciamento às vezes prejudicial do ambiente estudado. Segundo Batisde, é aí que Ruth Guimarães encontra sua força, nos introduzindo “na própria atmosfera do meio”, tornando “seus informantes entes vivos. O que nos torna participantes no livro.”

Durante a leituraque começa com análises de grande obras sobre o folclore oriundos do mundo inteiro e vai até depoimentos de velhas senhoras anafalbetasRuth nos transporta como se estivessemos escutando uma avó contando uma história para seus netos. Lembrei-me muitas vezes de minhas próprias avós, que adoram um “dedo de prosa” e destilam sabedoria contando seus passados. Sobre a obra em si, a escritora procura entender a origem de onde certos adágios, lendas e crenças vêm. Não deixa de lado quase nenhum personagem que, mesmo em nossa sociedade contemporânea, está relacionado ao demônio e ao medo. Fala de lobisomens, bruxas, fogo-fátuo, saci-pererê, anjos, demônios, santos, curupira, cruzes e superstições tão comum a nós ainda hoje, como dizer “saúde” para alguém que acabou de soltar um espirro. A obra se mostra mais atual do que pensamos a primeira vista.

Bibliografia consultada:
ANTÔNIO, Severino. Ruth Guimarães: Uma Voz de Muitas Vozes. Revista Mulheres e Literatura, v. 15, 2º Sem. 2015. Acesso em: 9 fev. 2017.
BOTELHO, Joaquim Maria Guimarães. Ruth Guimarães, da Palavra Franca.Ângulo: Cadernos do Centro Cultural Teresa D´Ávila, Lorena, v. 1, n. 137, p.6–8, Jun. 2014. Trimestral. Acesso em: 12 fev. 2017.
BATISDE, Roger. Os Filhos do Medo. O Estado de São Paulo (link 1) (link 2)São Paulo. 1 abr. 1951. Acesso em: 13 fev. 2017.
BARBOSA, Alexandre M. L. Ruth Guimarães: entrevista. Jornal Lince.Aparecida, ano 2, nº 21. set 2008. Acesso em: 9 fev. 2017.
CANDIDO, Antonio. Água Funda. Ângulo: Cadernos do Centro Cultural Teresa D´Ávila, Lorena, v. 1, n. 137, p.14–18, Jun. 2014. Trimestral. Acesso em: 9 fev. 2017.
GLOBO, Editora. História. 2017. Acesso em: 13 fev. 2017.