terça-feira, 18 de outubro de 2016

RUTH GUIMARÃES – UMA VOZ DE MUITAS VOZES


Severino Antônio

Centro Salesiano de São Paulo – UNISAL


Resumo: Este artigo traz algumas considerações sobre a obra e a vida de Ruth Guimarães (1920-2014), em diálogo com diferentes autores, dentre os quais Antonio Candido e José Paulo Paes, que ressaltam a relevância da autora, primeira escritora negra de reconhecimento significativo na literatura regionalista do modernismo brasileiro, tanto em sua ficção – romance, contos, crônicas e histórias infantis – como em seus estudos de cultura popular e folclore. O artigo reitera também a importância das histórias para a formação de leitores, para a educação da sensibilidade e da imaginação.

Palavras-chave: Ruth Guimarães – literatura – regionalismo – cultura popular.

Abstract: This article discusses the work and life of Ruth Guimarães (1920-2014), in dialogue with different authors, among which Antonio Candido and José Paulo Paes. These highlight the relevance of the author, the first of all black writer to achieve with significant recognition in regionalist literature of Brazilian modernism, both in his fiction – novel, short stories, chronicles and children’s stories – as in his study of popular culture and folklore. This article also reaffirms the importance of reading stories in the formation of readers and for the education of their sensitivity and imagination.

Keywords: Ruth Guimarães; literature; regionalism; popular culture.

Minicurrículo: Professor do Mestrado em Educação Sociocomunitária na Universidade Salesiana de São Paulo (UNISAL-SP). Doutor em Educação pela UNICAMP, é Conselheiro do Instituto ALANA. Há quarenta anos trabalha com ensino de Redação e Leitura, Literatura, Filosofia, e também com formação de professores. Escreveu vários livros, dentre eles:Constelações – uma escuta poética da infância (Adonis, 2014); Poetizar o pedagógico(Biscalchin, 2014); Uma pedagogia poética para as crianças – com Katia Tavares (Adonis, 2013);Uma nova escuta poética da educação e do conhecimento (Paulus, 2009); O visível e o invisível(Verus, 2008).


RUTH GUIMARÃES – UMA VOZ DE MUITAS VOZES

Introdução

De modo constelar, este artigo faz considerações sobre algumas dimensões da obra de Ruth Guimarães, a partir de diálogos com alguns de seus textos e com autores que escreveram sobre o seu trabalho literário e cultural, de muitas vozes, e sobre sua dimensão humana.

Por que escrever sobre Ruth Guimarães, sua obra, sua vida?

Mais de duzentos milhões de habitantes. Mais de sete milhões de universitários matriculados no Ensino Superior. Tiragem média de um livro de literatura brasileira: os que conseguem ser publicados, em sua imensa maioria, têm edição de mil a dois mil exemplares.

Um breve andar pelas livrarias ou um olhar de sobrevoo às listas dos livros mais vendidos já evidenciam o domínio da lógica da última novidade do mercado de best sellers, geralmente lançados em todo o mundo, de modo semelhante à maquinaria da industria do cinema comercial.

A extensão dessa miséria amplia-se pela permanente crise de leitura, dentro e fora das escolas. Ao término do Ensino Fundamental, e mesmo do Ensino Médio, quantos são os alunos capazes de ler compreensivamente um texto lógico expositivo um pouco mais elaborado, com raciocínio mais complexo? E a leitura das entrelinhas e das palavras criadoras de sentido, e de mais sentidos, do texto literário?

Exatamente por isso, é imprescindível o trabalho de formação de leitores, que não se separa da formação de professores – que leiam e que chamem seus alunos a ler, que despertem o desejo e o gosto pela leitura. Para esse despertar, as histórias são fundamentais, pelos seus poderes de empatia, de identificação dos leitores com os personagens e os enredos, assim como pela capacidade de desenvolver curiosidade e imaginação, que ampliam as margens da vida. A convivência com a literatura revela-se, assim, experiência de educação da sensibilidade, em ambos os sentidos inscritos etimologicamente na palavra educar: conduzir na vida, na cultura, na sociedade; extrair, despertar e desenvolver, de dentro para fora, potencialidades humanas.

Este artigo reitera também a necessidade da descoberta e redescoberta de autores do patrimônio cultural, tanto brasileiro como da humanidade. Dentre esses autores, é significativo o conhecimento – e o reconhecimento – de vozes pioneiras, como a de Ruth Guimarães, primeira escritora negra a ocupar espaço significativo na literatura modernista, e que traz, tanto em sua ficção como em seus ensaios, as vozes dos deserdados da terra, vozes raramente escutadas.

Uma tessitura de vozes

Poucos dias depois da morte de Ruth Guimarães, Antonio Candido escreveu:

Com a morte de Ruth Guimarães, a vida cultural do Brasil perde uma de suas grandes damas, o que ela de fato era, no sentido pleno das palavras. À capacidade intelectual e fidelidade à vocação, juntava uma distinção rara, realçada pela serena reserva.

Dois anos mais velho do que ela, e sendo crítico literário do Diário de São Paulo, pude comentar a sua estreia brilhante, com o romance Água funda.

(…)

Nem sempre os escritores são, como pessoa, tão relevantes quanto os seus textos. De Ruth Guimarães pode se dizer que era. A sua integridade, a sua distinção pessoal, o corte sóbrio de sua conduta na República das Letras faziam dela uma personalidade respeitada e encantadora (CANDIDO, 2014, s. p.).


No dia mesmo da morte da escritora, Noemi Jaffe assim expressou-se, em artigo para o jornal Folha de São Paulo (on line), com a colaboração de Cesar Soto, artigo de que são recolhidos alguns excertos:

A escritora Ruth Guimarães morreu às 14h desta quarta (21), aos 93 anos, em Cachoeira Paulista, cidade onde nasceu. (…) Como com Guimarães Rosa, para quem “o sertão é o mundo”, também para ela “ser caipira” era uma condição antes espiritual e ontológica do que exclusivamente regional. (…) foi amiga pessoal de Mário de Andrade e a primeira escritora negra a obter repercussão nacional, em 1946, com o romance Água funda (…).

Assim é que a autora (…) misturava a Grécia a sacis, perfazendo uma literatura cronística, poética e romanesca, sem deixar de ser “contação de causos”, recuperação de nossas raízes negras (…). Ruth Guimarães teve nove filhos, escreveu romances, contos, poesia, palestras sobre educação, política, cultura, fez crítica literária, escreveu para alguns dos jornais mais importantes do país –publicou crônicas semanais para a Folha durante os anos 1960 – e era membro da Academia Paulista de Letras. Mas, para muitos, permanece anônima, principalmente nas grandes cidades. Certamente não no Vale do Paraíba, onde é um nome fundamental. É um caso a se pensar e, mais ainda, a reparar. Ela deixa quatro filhos e quatro netos (JAFFE, 2014).

Fabio Lucas, confrade da escritora na Academia Paulista de Letras, assim se expressou:

Ruth Guimarães projetou-se, desde cedo, como personalidade ímpar na literatura brasileira. Pesquisadora do folclore, desvendou organizadamente um dos pilares da formação da nacionalidade, até então ofuscada pelo preconceito. Ficcionista, levou à criação o cerne de nossa origem. Pedagoga, ofertou às crianças os encantos e a massa crítica do mundo maravilhoso (LUCAS, 2014, p. 130).

Quase sessenta anos antes, em 1956, no lançamento de Grande sertão: veredas, o criador de Riobaldo e Diadorim escreve-lhe como dedicatória:

A Ruth Guimarães,

– parenta minha; e uma das pessoas mais simpáticas que já encontrei na vida; e que escreve como uma Fada escreveria –, com o grato apreço e a amizade do Guimarães Rosa (Rio, 11.VII. 56).

A questão da linguagem e da literatura regionalista

Uma obra vasta e plurívoca, de mais de quarenta volumes, de diferentes gêneros, com muitas dualidades: ao mesmo tempo regionalista e cosmopolita, feminina e universalista. Uma obra multifacetada, mas com uma concepção unitária de cultura e de literatura, que permanece coesa pela existência inteira.

Uma das mais expressivas dualidades pode ser assim apresentada: de um lado, a romancista de Água Funda, escrito aos vinte e um anos, e publicado em 1946, por Edgard Cavalheiro, autora que se reconhece e reitera sua identidade no pertencimento à literatura regionalista, à cultura caipira do Vale do Paraíba; de outro lado, a tradutora erudita, a latinista que faz uma admirada tradução de O asno de ouro, de Apuleio, estudada em diversas universidades, tradutora também de autores clássicos franceses, como Balzac e Daudet, assim como autora de um dicionário de mitologia grega, adotado em muitas faculdades.

Mesmo no campo específico de sua narrativa, há fecundas polaridades, faces diferentes e complementares, nunca dicotômicas, que propiciam chaves interpretativas que ampliam o diálogo e o reconhecimento da complexidade de sua criação. Uma das chaves é a que reconhece a dualidade de sua linguagem, unidade da diversidade, em oculta harmonia: a contadora de histórias do Vale do Paraíba, em especial de Cachoeira Paulista, traz a linguagem caipira, a fala viva das personagens; traz também, quase sempre na voz dos narradores, uma linguagem de feição clássica da língua portuguesa, que se espelha e inspira em Machado de Assis – não nas digressões, mas na concisão machadiana, autor que é a referência maior no cânone da autora, que leu Dom Casmurro aos nove anos de idade, do começo ao fim, “embalada pela música de suas frases”.

De muitos momentos possíveis, seguem dois, respectivamente representativos dessas duas faces inseparáveis da linguagem de Ruth Guimarães. Primeiramente, a voz das personagens caipiras:

– Não, Irmã. Ela não está trabalhando. Eu sei. Percebo quando chega. O passo é leve, mal escuto. Entra em todas as peças da casa, sem sossego. Depois vai ficando vagarosa, pesada, parece que dá um passo e pensa, dá mais outro e pensa. E aí chega perto de mim e fala qualquer coisa, ligeiro, por comprazer. Outra hora escuto, longe, no terreiro, ou na sala, a batida de quem dança. Fala comigo sem paciência. Não, Malaquias; já vou Malaquias. Eu já não disse, Malaquias? Correu duas vezes, antonte, foi ficar na porta. Ficou um tempo. Quando voltou, perguntei: Foi enterro? E ela falou com um jeito desacorçoado: Também, Malaquias, a gente aqui nesta lonjura… (…) – peguei um passarinho na arapuca. – A voz do homem estava cansada e distante. – Coração dele ficava batendo na palma da minha mão. Única coisa que ele queria era escapar. Inda ’trodia, Maria se aprontou. Ia pro emprego. Tudo igual a todo dia, mas não sei o que tinha ficado diferente. “Espera um pouco, Maria, quero ver você.” Eu disse. Passei a mão no ombro dela. (…). Então dei um empurrãozinho nela e disse: “Vai que é tarde.” “Vou, sim.” E ficou parada um tempão. A freira esperou. Cego Malaquias também. No fim de uma expectativa um pouco ansiada, ele contou: – passei a mão no cabelo dela. Tinha uma flor (GUIMARÃES, 1996, p. 7 e 8).

E a voz do narrador, concisa, substantiva, de frases curtas e coordenadas: “A gente passa nesta vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez” (GUIMARÃES, 1946).

É necessário lembrar sempre que a contadora de histórias, que escreve desde dentro da vida e da linguagem caipira, convive, o tempo inteiro, com a pesquisadora de folclore e de cultura popular, autora de obras como o pioneiro Os filhos do medo, de 1940, só publicado em 1950, lido nos originais por Mario de Andrade, que se torna amigo e uma espécie de mestre permanente da jovem escritora, e como Calidoscópio – a saga de Pedro Malazarte, vasta pesquisa feita por muitos anos, finalmente publicada em 2006, em volume de mais de trezentas páginas.

Em estudo para uma edição especial da obra O mundo cabloco, de Valdomiro Silveira, Ruth Guimarães escreve palavras que poderiam ser ditas sobre a sua condição de escritora e a sua própria literatura regionalista:

Refere-se a homens da terra pã-anímicos, sendo a expressão de uma experiência restrita, no campo da civilização, expressão do primitivo, visto de dentro para fora, revelado por si mesmo. (…).

Vamos dizer que logo se pôs um subproblema e era usar a língua na sua integridade gramatical e ortográfica, ou ao contrário empregá-la tal como a emprega o primitivo. Primitivo neste assunto e audacioso para o momento, sumamente perfeccionista no estilo em que vivia e escrevia, Valdomiro Silveira rompeu cânones a usar (pela primeira vez se usava) a linguagem dos mestiços do subtrópico em geral, e a do paulista em particular. Ou o valeparaibano, caipira, ou o santista, caiçara. Em Os Caboclos compareceu a linguagem falada do caipira (GUIMARÃES, 1974, p. xxii).

Ruth Guimarães sempre reivindicou sua condição de caipira, seu pertencimento à literatura regionalista caipira, o que é acompanhado de estruturas clássicas de narrativas, tanto na organização do enredo como na apresentação das personagens. Essa identidade é reconhecida por muitos dos seus leitores críticos, como José Paulo Paes. Em resenha publicada no jornal O Estado de São Paulo, a respeito do livro Contos de Cidadezinha, de 1996, ele escreve:

Ruth Guimarães continua praticando a narrativa de tipo tradicional. compraz-se em contar histórias com começo meio e fim e (…) a fala acaipirada de seus personagens e a miúda vida interiorana sobre que ela amorosamente se debruça denunciam-lhe logo a filiação a um regionalismo dado como irremediavelmente morto pela crítica de plantão. (…). Em comum com Costa Dantas, tem Ruth Guimarães o mesmo gosto coloquial e a mesma capacidade de descobrir, no dia a dia da gente mais simples, as raízes da humana condição. (…). Seja como for, o importante é a maestria de fatura e o poder de convencimento da arte narrativa de Ruth Guimarães, bem como a variedade de soluções a que recorre para dar interesse aos seus textos (PAES,1996).

Mais de cinquenta anos antes, quando do lançamento do romance Água funda, o então jovem crítico Antonio Candido resenhou o livro para o jornal Diário de São Paulo. Nela, já reconhece que a jovem autora unia “o português clássico à linguagem da gente humilde”. Ao final da resenha, afirma: “(…) não há dúvida que o seu romance (se for romance) encanta pelo equilíbrio da narrativa e o puro sabor das coisas naturais. Quem começa desta maneira irá, certamente, muito alto na carreira de escritor” (CANDIDO, 1946).

Na edição de 2003 de Água funda, Antonio Candido faz o prefácio da obra, em que assevera:

Este livro exprime bem o equipamento cultural e a visão de mundo de Ruth Guimarães, prosadora de qualidade e conhecedora profunda da cultura popular brasileira. É um romance, mas escrito como se fosse prosa afiada, como se fosse narrativa caprichosa que vai indo e vindo ao sabor da memória, ao jeito dos contadores de casos. Esta primeira impressão é justa, mas não deve esconder do leitor o que há neste livro de composição deliberada, de técnica bastante complexa, rica em elipses, em saltos temporais, em subentendidos. (…). O que estou procurando sugerir é a complexidade dessa narrativa despretensiosa, que sabe fundir os planos e passa com tanta maestria do individual ao coletivo, do natural ao social, do real ao mágico (CANDIDO, 2003, p. 7 e 9).

A imagem de si mesma

Ruth Guimarães não se tornou conhecida do grande público, apesar de ter feito inclusive reportagens para revistas de elevada tiragem, como Realidade e como Quatro Rodas, e apesar de ter publicado centenas de crônicas, como no jornal Folha de São Paulo em que, na década de 1960, alternava-se com Cecília Meireles e Carlos Heitor Cony.

Ao ler os textos a respeito de sua obra, uma outra questão emerge: o que a autora fala sobre si mesma, sobre sua condição de mulher, escritora, negra, pesquisadora, com uma vida singular, que raros romances seriam capazes de conceber e imaginar?

A condição de órfã desde cedo, de irmã que cuida dos irmãos; o casamento com o primo, o fotógrafo José Botelho Neto, casamento de mais de cinquenta anos, que nunca separou vida e literatura; a mãe de nove filhos, três dos quais com graves limitações provocadas pela síndrome de Alport; a romancista aos vinte anos; a estudante de letras clássicas, nos tempos da fundação da USP, aluna de Fidelino de Figueiredo e de Roger Bastide, dentre outros; a professora de português, por trinta e cinco anos, em escolas públicas do estado de São Paulo; a professora universitária em muitas faculdades no Vale do Paraíba; a animadora cultural, criadora de museu de folclore, diretora e secretária de Cultura em muitos municípios do Vale; a participação na Academia Paulista de Letras em que, com oitenta e oito anos, assume a cadeira vinte e dois…

Uma vida de muitas vidas. Ruth Guimarães pouco escreve e pouco fala de si mesma. Em uma das raras vezes em que se expressa diretamente sobre sua condição de mulher negra e escritora, em 1982, em entrevista a Heloneida Studart, para a revista Manchete, afirma: “Não é fácil ser mulata. (…). Esse louvor gratuito à mulata é coisa do Rio, de Copacabana, divertimento de intelectuais. A realidade é outra. Em qualquer ponto do país, a mulata é vítima do sistema duas vezes: como mulher e como negra” (GUIMARÃES, 2014, p. 49).

Em 2008, é eleita para a Academia Paulista de Letras. No discurso de posse, em 18 de setembro, faz breve menção a si mesma, a sua história vivida: “Eu não tinha ainda dezoito anos e vim para São Paulo, para abrir caminho na vida. E isto me palpitava obscuramente escrever. Sozinha. Arranjei trabalho modesto de datilógrafa correspondente, do outro lado do Arouche” (GUIMARÂES, 2014, p. 125).

Há uma passagem muito significativa que revela a imagem da autora sobre si mesma, sobre sua condição de mulher e de escritora, sobre sua concepção de literatura, sobre o seu processo de criação: trata-se do texto de abertura da obra Contos de cidadezinha. Um prefácio, chamadoDuas palavras, um texto síntese de sua visão. Neste prefácio, enuncia algumas indagações fundamentais:

Escrevo para quê, afinal?

Indago de mim mesma e encontro inúmeras respostas, possivelmente nenhuma correta: Para obter honra e glória? Para poder dizer tudo o que penso? Para me aproximar do meu semelhante? Para tentar derrubar o muro que separa um ser de outro ser? Para apreender o sortilégio da vida, que de outro modo não alcanço? Para justificar essa minha existência? Para deixar impresso no mundo o traço da minha passagem? (GUIMARÃES, 2006, p. 3 e 4).

Responde a essas questões com uma prosa poética:

Ah! Eu conto histórias para quem nada exige, e para quem nada tem. Para aqueles que conheço: os ingênuos, os pobres, os ignaros, sem erudição nem filosofias. Sou um deles. Participo do seu mistério. Essa é a única humanidade disponível para mim. Quem me dera escrevesse com suficiente profundeza, mas claramente e simplesmente, para ser entendida pelos simples e ser o porta-voz dos seus anseios (GUIMARÃES, 2006, p. 4).

Imagens expressivas da autora sobre si mesma poderiam ser encontradas em seus poemas. Mas eles ficaram praticamente inéditos. Alguns foram reunidos em um número especial da revista Ângulo, de homenagem póstuma à autora. Os poemas são um outro continente, uma espécie de face oculta da criação literária de Ruth Guimarães. Não pertence à linhagem regionalista. São textos de temática existencial. Revelam-se como uma voz feminina, em enfrentamentos que não cessam – com dilemas, determinações e finitudes – em um mundo também assinalado de anunciações, mas sem transcendência. Escreve ela:

Itinerário

Pelos corredores do tempo/eu fui, / como se soubesse o caminho./Como se distinguisse o caminho./ Como se houvesse um caminho./E, sem saber de mim,/ continuadamente/ retorno ao ponto de partida (GUIMARÃES, 2014, p.100).

O texto a seguir, poema em prosa de que foi retirado um fragmento, traz um campo de imagens marítimas, imagística estranha ao mundo das personagens das pequenas cidades e das montanhas de passagem para Minas Gerais, espaço geográfico e existencial das suas narrativas:

Um dia eu serei marinheira no mundo, quando não sei, por que não sei. Há barcos de muito jeito. E se não for de outro modo, vou no barco do esquecimento, marinheira no mundo, nesse mesmo eu vou. Talvez entre algas, talvez entre luas e plumas. Os peixes passarão diante dos meus olhos abertos. E oceanos de silêncio se erguerão de todos os lados intransponíveis. Estarei viajando para onde ninguém me alcança, marinheira no mundo (GUIMARÂES, 2014, p. 24).

Retornando à questão do seu pertencimento à cultura caipira e à necessidade de trazer a voz genuína das personagens, Ruth Guimarães sempre discorda do processo de invenção de palavras na literatura. Para a autora, a palavra é criação comunitária e social. Se inventada, torna-se artificial, sem vida. O ficcionista precisa de enraizamento, não somente na linguagem, mas na existência.

Aos noventa e três anos, em entrevista para o jornal da União Brasileira de Escritores (UBE), assim discorre:

A minha literatura é regionalista, porque eu sou caipira. O escritor regionalista tem que ser uma pessoa do povo, que vive o que o povo vive, e que tenha burilado sua linguagem a ponto de ser capaz de transmitir com fidelidade e apuro linguístico a maneira de pensar e de viver do homem do povo. Eu sou caipira. Eu vivi a cultura da cidade pequena, e contei uma história( no romanceÁgua funda, de 1946) que respeita o pensamento e a linguagem caipira. E não só isso, mas respeitando a maneira do caipira de contar uma história, a sua maneira de pôr a linguagem (GUIMARÂES, 2013, p. 14).


Sobre a necessidade de convivência com histórias e personagens mitopoéticas do folclore e da cultura popular, Ruth Guimarães sempre reiterou energicamente a implicação pedagógica da literatura, como forma genuína e insubstituível de educação, tanto no sentido do acesso ao patrimônio cultural, como no sentido do enriquecimento da sensibilidade e da imaginação. Já no prefácio ao seu primeiro livro infantil, o Lendas e fábulas do Brasil, de 1972, escreveu:

Os contos de encantamento obram, pois, outras maravilhas: sonhos do homem acordado, são também o aflorar do subconsciente, esse laboratório de alquimia da alma, onde cada um resolve os mistérios da sua própria vida. O viver continua encantado e miraculoso. E enigmático. E desconhecido. Contando às crianças os contos encantados, nós as ajudaremos a solver os seus mistérios, sem choques e sem ansiedades.

Ouvindo essas estórias de contar à noite, as crianças dormirão no embalo dos cavalos alados, dos prinspos e prinspas, do papagaio que virou gente, de madrinhas que transformam abóbora em carruagem. Trata-se de restos de ilusões do homem que, nesta era tecnológica e maquinal, no seu sentido mais terrível, maquinático e maquinâmico, perdeu a fantasia e a capacidade de criar novos desejos. (…). Dá pena saber que há crianças que nunca ouviram casos narrados assim (GUIMARÃES, 1972, p. 2 e 3).

Nas duas últimas décadas de sua longa vida, pensava um romance, sempre por escrever, sempre inacabado – O livro da bruxa, que poderia ser interpretado como uma metáfora, como um símbolo da sua condição, ela que afetuosamente era chamada de bruxa por muitos de seus amigos, inclusive por seu conhecimento de plantas medicinais.

Décadas depois da publicação de Lendas e fábulas do Brasil, retoma a publicação de contos de base folclórica – Histórias de onça; Histórias de jabuti – que mesclam pesquisa e criação, para leitores de todas as idades. Sobre essas histórias, que comporiam um conjunto de nove livros, afirma:

Que continuemos, pois, a contar, ler e narrar contos folclóricos universais, pois que pertencem indestrutivelmente também a uma universalidade do ser. Mas que conheçamos as histórias brasileiras, que nos integrarão à nossa cultura, ao nosso pensar, agir, sentir e fazer de brasileiros. Elas constituem lições profundas, verdadeiras e indispensáveis de brasilidade (GUIMARÂES, 2008, p. 5).

Na época de seus noventa anos, organizava uma outra pesquisa: conversas, com pessoas mais velhas de Cachoeira Paulista e de outras cidades do Vale do Paraíba, sobre a memória das histórias que ouviam e que liam quando crianças.

Uma dificuldade física tornava-se dramática. Ruth Guimarães sempre escreveu os seus textos diretamente em uma antiga máquina de escrever. Com o tremor das mãos, a dificuldade de datilografar era cada vez maior. Muitas vezes ela se recusava a gravar ou a ditar os textos. Reiteradamente explicava que suas mãos é que pensavam, elas é que criavam os textos.

Considerações finais

Mesmo aqueles que não se identifiquem com a literatura regionalista e com a concepção de linguagem e de cultura de Ruth Guimarães, também eles podem reconhecer a fecundidade de sua leitura, da escuta de suas múltiplas vozes, como uma experiência literária, cultural e humana.

A voz da jovem negra, que cria os irmãos. A voz da mãe de nove filhos. A voz da contadora de histórias – em romance, contos, crônicas, que trazem as vozes de homens e mulheres raramente escutados. A voz da tradutora de clássicos do latim e do francês. A voz da pesquisadora de folclore e cultura popular. A voz da professora de português e literatura. A voz da animadora cultural. A voz da discípula de Mario de Andrade, parenta de Guimarães Rosa, amiga de Antonio Candido.

Uma voz de muitas vozes, para quem se pode dizer o que Manuel Bandeira escreveu a Mario de Andrade: sua vida continua na vida que você viveu.

Referências Bibliográficas

CANDIDO, Antonio (2014). Sobre Ruth Guimarães in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.

CANDIDO, Antonio (1946). Notas de crítica literária: Água funda, jornal Diário de São Paulo, 18 set. 1946.

GUIMARÃES, Ruth (1946). Água funda. Rio de Janeiro: Globo.

GUIMARÃES, Ruth (1950). Filhos do medo. Rio de Janeiro, Globo.

GUIMARÃES, Ruth (1972). Lendas e fábulas do Brasil. São Paulo: Cultrix.

GUIMARÃES, Ruth (1972). Dicionário da mitologia grega. São Paulo: Cultrix.

GUIMARÃES, Ruth (1974). O mundo caboclo de Valdomiro Silveira, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora/Secretaria de Cultura, Estado de São Paulo/Instituto Nacional do Livro/MEC.

GUIMARÃES, Ruth (1996). Contos de cidadezinha, Lorena, SP: Centro Cultural Teresa D’Ávila.

GUIMARÃES, Ruth (2003). Água funda. Prefácio de Antonio Candido. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

GUIMARÃES, Ruth (2006). Calidoscópio – a saga de Pedro Malazarte. São José dos Campos, SP: JAC Editora.

GUIMARÃES, Ruth (2008). Histórias de onça. São Bernardo do Campo, SP: Usina de Ideias. 

GUIMARÃES, Ruth (2008). Histórias de jabuti. São Bernardo do Campo, SP: Usina de Ideias.

GUIMARÃES, Ruth (2014). Não é fácil ser mulata – entrevista para revista Manchete, in RevistaÂngulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.

GUIMARÃES, Ruth (2014). Discurso de posse na Academia Paulista de Letras, in RevistaÂngulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.

GUIMARÃES, Ruth (2013). Leitura e brasilidade – entrevista para o jornal O Escritor, da UBE (União Brasileira de Escritores), nº 13, abril 2013.

GUIMARÃES, Ruth (2014). Poemas, in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.

JAFFE, Noemi (2014). Morre Ruth Guimarães, da Academia Paulista de Letras, aos 93 anos, inFolha de São Paulo, 21/05, Folha on line.

LUCAS, Fábio (2014). Depoimento sobre Ruth Guimarães in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.

PAES, José Paulo (1996). Uma contista do interior revive sua fala, in Caderno Especial, jornal O Estado de São Paulo, 15 set. 1996.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Nossa Língua - Ruth Guimarães

Este vídeo do programa "Nossa Língua" uma parte da entrevista com a escritora Ruth Guimarães, especialista em contos populares. A escritora fala sobre a personagem saci, e outros personagens do folclore brasileiro; conta como escreveu seu livro a partir das histórias de Pedro Malazarte; comenta sobre o papel de um contador de história; e, para finalizar, conta a história de João Brandão. 
Link para acessar: http://www.portugues.seed.pr.gov.br/modules/video/showVideo.php?video=8537

Produção: TV Cultura

Idioma: Português

Palavras-chave: Contos populares. Folclore brasileiro. Contador de histórias. Saci. João Brandão.

Duração: 14min41s

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Costelas de Heitor Batalha - degustação


Deus é menino em mil sertões. 

– Guimarães Rosa – 

A morning shows the day, as the child shows the man. 

– Milton – 

Toute douleur qui n’aide personne est absurde. 

– André Malraux – 

Caminante, no hay camino Se hace camino al andar 

– Antonio Machado – 



APRESENTAÇÃO 

A proliferação de livros para o universo infanto-juvenil no mercado editorial continua gerando labirintos, chaves que abrem a porta a experiências de leitura sutis, contundentes, estremecedoras. Cada vez mais encontramos livros que deixam perguntas que propiciam o questionamento, a reflexão, a investigação, que nos levam a pensar que a literatura passa a ser vista como um oceano caótico ansioso de classificação, o que nos força a um exercício inútil de distinguir os bons dos maus escritores. E realmente, classificar é tão inútil como inevi- tável. Um impulso do intelecto ocioso que busca ou inventa ordem onde não há mais que caos e contingência. Um exercício cruel e banal, mas, no fundo, potencialmente proveitoso, e proveitoso porque acaba por nos ajudar a descobrir coisas, detalhes inadvertidos, elementos que de outro modo permaneceriam ignorados, realidades que não são verdadeiras e contudo existem. Por outro lado, essa literatura, excetuando os textos de caráter educativo, parece dar sinais de que começa a vivenciar um bom momento; os organismos oficiais têm tomado consciência de sua impor- tância na formação da personalidade, como fomentadora da criatividade e transmissora de valores; escritores, ilustradores e editores se tem dado conta do número potencial de leitores dentro deste segmento da população e da exigência dos mesmos e, conscientes de que o público se não for instigado à leitura quando jovem, dificilmente o será depois. 

Hoje encontramos escritores que criam uma maneira claramente identificável de fazer literatura; há os proustianos, os cortazarianos, os joyceanos, gongorianos e beckettianos; os que vivem a elogiar a sordidez dos dias, os que vivem da emulação, enfim. Mas há principalmente aqueles que considero escritores com “e” maiúsculo, porque de algum modo o bom escritor é aquele que transcende a vontade de emulação ao descobrir a relação entre essa parte pessoal da linguagem e a linguagem do mundo, quando toma consciência de que as palavras e sua acomo- dação devem responder a uma maneira singular de apreender o mundo, uma maneira única porque emana dessa historia irrepetível que é uma existência humana e tudo, tudo o que esta carrega. Dentre esses escri- tores preparo um lugar para Joaquim Maria Botelho, que sem procurar novidades acaba encontrando-as. Novidades sem modismos, em seu “Costelas de Heitor Batalha”. 

À leitura do seu livro remeto-me à lembrança de Nietzsche quando diz que “a riqueza da vida se traduz pela riqueza dos gestos”; e que há “que aprender a considerar tudo como um gesto: a longitude e a cesura das frases, a pontuação, as respirações; também a eleição das palavras, e a sucessão dos argumentos.” 

É com esse conceito que findo a leitura desse livro onde Joaquim Maria Botelho trabalha com personagens que somos todos nós, defeituosos, arranhados, sofridos, mas também elegantes, belos, viventes de um mundo que está à nossa porta. Um livro cujas páginas se abrem não apenas para o público a que se destina. É amplo, um mundo dentro de um mundo com todas as mazelas e grandezas que o tempo oferece; um desfilar de imagens bem-acentuadas, frases belamente construídas, consciência de que “a gente cresce, aprende a hipocrisia social e aí sim tudo na vida fica mais complicado.”; de que vivemos sempre a nos perguntar sobre o tempo, os dias, em querer saber quanto tempo duram as coisas”, de se conscientizar de que “o amor não se compra, nem se vende; amor, a gente dá, como a boa ajuda que constrói a gratidão.” 

Joaquim Maria Botelho já deu provas suficientes de que é um excelente jornalista, e nem surpreende ao mostrar-se escritor. O que precisa, com esse dom que me parece atávico, é se mostrar mais, porque nós que vivemos de e para a leitura e escritura estamos sempre famintos por um bom texto. E espero francamente que o leitor atente para sua obra que mais que tudo é um chamamento para o exercício da escrita. 

“Costelas de Heitor Batalha” é, sem dúvida, um dos bons livros que li nos últimos tempos e me faz afirmar que seu autor mostrou-se muito feliz ao enfrentar essa dura batalha de escrever para um público tão exigente que é esse a que, primordialmente, se destina.

Luís Avelima 
Poeta, músico e tradutor 

PREFÁCIO 

Enquanto mostra, calmamente, a irracional sabedoria das galinhas, que não temem a cobra porque sempre souberam dominá-la, Joaquim Maria Botelho vai mostrando, no decorrer da sua narrativa espraiada, o doloroso construir do jovem Heitor Batalha (Batalha? Botelho?), ao longo de sua vida de menino interiorano. Sabiamente ele começa o texto com um momento dramático, capaz de construir suspense e manter até o fim do romance, intacta, a revelação. 

Mas, entrementes, dá-nos notícia de suas primeiras quase-aventuras amorosas de menino, do seu tatear pelo corpo da mulher desejada, das desilusões, das difíceis relações dos adolescentes com seus pais, da inces- sante procura do jovem por um modelo, que passe pela fisionomia psico- lógica do pai, mas não o imite. 

A história vai correndo pela infância, pelas férias sempre desejadas, pelos desencontros afetivos, que envolvem amigos e amadas, pelas escolas, primeiras e mais complexas, pelo ambiente político do interior paulista – e o interior paulista assoma sempre – até voltar ao primeiro incidente. 

Este seu trauma inicial é retomado num clima de sonho, devaneio, embriaguês, anestesia e delírio, que o autor, numa boa escolha, deixa morrer na incerteza. 

Um bom romance de estreia e uma estreia promissora. 

Renata Pallottini, da Academia Paulista de Letras 


Naquela noite, nada indicava tempestade. Nenhum indício de tragédia. O encontro marcado com Renata o deixava feliz, os músculos da barriga contraídos de ansiedade. Fez a barba, enfiou-se em roupa nova, e de roupa nova ele se achava um perigo, passou perfume. Demais. Penteou-se. Recuou dois passos para botar a silhueta inteira no reflexo do espelho. Penteou-se de novo. Chegou mais perto para verificar se era perceptível a espinha despontando no nariz. O moço do reflexo, ele mesmo, ou o outro que ele queria ser, especial, sublime, apaixonado, sério, terno, ostentava ar inteligente. Ajustou expressão facial diferente para cada uma dessas qualidades que planejava exibir para a moça. Experimentou o perfil. Esquerdo. Depois o direito, o lado melhor. Ergueu a sobrancelha, num gesto de conquistador, imaginando a impressão que causaria, depois caçoou bobo de si próprio. Não se incomodou com a cicatriz na testa – recuerdos de um voo de cima do muro ao chão, quando tinha cinco anos, ganhou uma capa de super-homem e achou ter ganhado superpoderes junto com a fantasia. 

Passou a mão por baixo do queixo e foi atrás do aparelho de barba, para raspar um pouco melhor o começo do pescoço. Chegou o rosto bem perto do vidro para inspecionar o resultado. Não resistiu ao riso, por causa dos olhos envesgados pela proximidade da imagem. Percebeu o respingo de espuma de barba na gola de camisa. Foi ao guarda-roupa, mas, caramba, não tinha outra para compor tão bem o conjunto. Voltou para o banheiro e abriu a torneira da água quente. Molhou a pontinha da toalha de rosto e se esmerou na eliminação da mancha. Esperou secar a umidade para conferir se o grave problema fora corrigido. Não se percebia quase nada. Aliás, quem visse de fora, nem notaria o ponto ínfimo. A dimensão de um problema tem proporção direta com a expectativa da pessoa. 

Haviam acertado o encontro para as nove horas, no cinema. O relógio lerdo marcava ainda sete horas e ele não aguentava mais ficar em casa. Sentou-se no sofá. Não chegou a ficar dois minutos. Foi ao compu- tador. Ligou. Uma eternidade para carregar o sistema, pouca memória virtual, talvez, o técnico não resolveu de vez essa lentidão, não chamo mais esse cara, tenho um amigo, esse deve conhecer melhor os segredos da informática, vou falar com ele. Desistiu no meio do processo e desligou o aparelho. Foi para a cozinha. Abriu a geladeira, sem saber o que buscar lá dentro. Fechou a porta e a cara. Ah! que se dane! 

A casa da Renata ficava perto. Ah! Sim. Na Vila Mariana, em São Paulo, muita gente ainda morava em casas, apesar do número de prédios de apartamentos brotando quase de um dia para o outro, onde antes o desavisado passante se lembraria de haver uma padaria, uma quadra de tênis, um sobradinho. Pois a Renata morava em uma dessas casas. Um bangalô antigo, bem cuidado, com pequeno jardim à frente, cercado de grades baixas, portãozinho no centro. Passara por ali várias vezes, quando começou a se interessar pela moça, havia pouco mais de dois meses. O relacionamento avançava devagar, tímido e comportado, diferente das velozes aproximações amorosas de hoje. Sabia pouca coisa da moça, a bem da verdade. Discreta, reservada, não abria o coração. Mas tinha aberto um pouquinho a blusa, no último encontro, para permitir uma rápida carícia por sobre o sutiã. Tentara invadir um pouco mais no quesito conteúdo. A moça recuara o corpo centímetros bastantes para avisar que a investida lhe parecia suficiente para o momento. 

A lembrança do contato físico causava-lhe arrepios de ansiedade. Passara por algumas experiências amorosas. Aquela, contudo, era especial. Estava cansado de se sentir obrigado a “trabalhar” relacionamentos amorosos. Tivera uma namorada inteligente e paranoica, e fora sufocado pela necessidade de se manter alerta, atento a todos os detalhes, cuidando do que dizia ou não dizia, em agonia de ser mal entendido por causa de uma careta involuntária, ou porque elevou a voz um pouquinho a mais. Não podia simplesmente agir com espontaneidade e ser entendido? Todo mundo tem direito a um ou outro momento de mau humor, ou de inconsequência, ou de ingenuidade. Basta não prejudicar ninguém, nem contrariar princípios. Cansou-se de agir sob o comando da racionalidade. Por isso, permitia-se voltar às sensações adolescentes, apesar dos vinte e três anos. 

Contando essa namorada doidinha, teve alguns grandes últimos amores para toda a vida. Com todos eles sofreu, por impetuosidade ou preci- pitação. Queria mudar, ficar mais solto e despreocupado. Começaria por treinar o sorriso. Precisava atenuar a expressão séria, que passava imagem de pessoa meio solitária e distante, que não gosta de brincadeiras. Também precisava relaxar a atitude, civilizada demais, severa demais. As pessoas podiam pensar que agia assim para esconder insegurança. 

Renata, a moça de cintura fina, tinha mistérios. Heitor decidiu mergulhar no desconhecido e não ter pressa de saber mais sobre ela. Consi- derou que a agradaria se a deixasse à vontade para falar de si. Melhor curtir cada dia, receber cada informação como se fosse um presente. Mentira! Morria de curiosidade. Havia compensações. Um breve telefonema – sempre para o celular, porque ela não concordava com isso de telefone em casa. Está certo, a gente não nasceu pra virar escravo do telefone. Mas o próprio celular ela não atendia na primeira ligação. Quase sempre dava retorno mais tarde, às vezes horas mais tarde. Você não conhece bolsa de mulher? A gente nunca encontra o celular em tempo de atender. E, além disso, no trabalho, costumo deixar no modo de vibração, por isso não percebo quando entra uma chamada. Heitor concordava, e como não concordar com aquele olhar inocente lançado para cima, com a cabeça um pouco abaixada, ar de menina frágil a pedir compreensão? 

Estava inebriado por ela. Pelo conjunto. Tom de voz, elegância, independência, beleza, a própria timidez. Sentia orgulho em andar de mãos dadas com ela pelas ruas. Embora Renata se mostrasse um pouco sem jeito com essas coisas de namoradinha. Deixava a mãozinha escor- regar de dentro da dele para colocar os cabelos para trás da orelha, um gesto típico. E encantador. Ou para trocar a bolsa de braço, ajeitar a pulseira. Devia ser constrangimento. A pessoa, quando fica um tempo longo sem namorar, perde a prática. Para um rapaz vivido como Heitor, nem a atitude dela nem a pretensa justificativa dele faziam sentido. Mas, caramba, eu não dizia que preciso parar de analisar as pessoas com tanta exigência? 

Pensou nas suas grandes paixões. Duas. Três, para ser exato – de Valentina quase nem lembrava mais. Juliana o envolvera numa situação que jamais conseguiu, de todo, absorver. Passou. Quem sabe pressões familiares a tivessem induzido. Não adiantava atormentar-se. Passou. Vitória, que pensara ser a mulher definitiva, foi um louco indecifrável enigma. A ela, ainda às vezes dedicava alguns suspiros e saudades. Achava ter amadurecido com essas duas experiências, aprendido a enfrentar as benesses e os malefícios do amor. Não aprendeu nada. Percebia isso com Renata. Costumava se achar experimentado nas alianças amorosas, mas agia em relação a ela com a timidez e a hesitação das primeiras vezes. Cada encontro é um, cada relacionamento é diferente do outro. E a gente não age com a outra pessoa de acordo com o cérebro, mas conforme a emoção ordena. Heitor começava do zero, readquiria inocência, a cada relaciona- mento. Entretanto, mesmo sem querer e sem admitir, lá no cofre do peito repousavam suspeitosas dúvidas sobre os mistérios de Renata. 

Aflito de impaciência, resolveu passar na casa dela mais cedo. Nem vou me dar ao trabalho de telefonar, porque a danadinha não vai atender. Já sei. Passo por lá, de uma vez. Fico esperando, na sala, ela se arrumar. Isso, faria isso. 

Na noite fresca de junho, de céu limpo, líquido e luminoso, ele caminhou com decisão, embora por várias vezes tivesse hesitado. Ficaria aborrecida com a chegada antecipada dele? Será que a loura cabecinha queria fazer surpresa, surgindo, como fada, à frente dele, pronta e irreto- cável? Caminhava embalado por esses pensamentos. Quando deu por si, estava diante do portão. Abriu-o, mãos de punguista, e subiu, pés de pano, a escada da varandinha. 

Tomou o cuidado de pôr o celular no modo silencioso. Não queria telefonema algum atrapalhando aquela noite. Bateu à porta, de leve, levemente, pensando no poeta Augusto Gil. Renata nem ouviria as batidas, lá de dentro, tão discretas foram. Esperou um tempo, avaliando se devia chamar outra vez. Sentia-se um tanto envergonhado. Não queria incomodar, deixar a moça aborrecida, e com isso estragar o passeio. Já estava ali, porém, espetado diante da porta. 

Bateu de novo. Ainda com timidez. Nenhuma resposta. Bateu mais forte e esperou. 

Era cedo, bobagem vir aqui com quase duas horas de antecedência, coisa mais imatura...! 

Ia virando as costas para descer a escada quando ouviu tosse de homem dentro da casa. Levou um susto! Renata morava sozinha. 

Tinha acontecido um assalto no bairro duas semanas antes, e ele temeu a possibilidade de um ladrão ter invadido a casa. Sentiu o coração batendo dentro dos ouvidos. Doido, imaginando tragédias, forçou a porta da frente. Destrancada. Empurrou-a devagarinho, botou a cara para dentro e foi entrando. Na penumbra da sala enxergou o corredor e ao fundo a porta do quarto. A pulsação galopava. Avançou, encostando-se nas paredes. Pela porta entreaberta, viu as costas de um homem. Esfriou-lhe o corpo todo e um tremor incontrolável sacudiu-o inteiro. O que viu deixou-o virado em pedra! Renata deitada na cama, sem roupas, de olhos fechados. O homem, na frente dela, em pé, arrumava a calça. Um estuprador! Tinha assaltado a casa e agora se lambuzava na agonia da vítima! 

Aterrorizado, não pensou em mais nada. Pegou a primeira coisa que pudesse servir de arma: um castiçal de ferro. Chutou a porta e pulou com raiva para cima do intruso. O fulano ainda se voltou para ver o agressor. Não teve tempo de reagir. Tomou uma pancada forte na cabeça. Sujeito resistente; no meio da queda, espirrando sangue pra todo lado, ainda achou jeito de desfechar um coice. A força do golpe fez Heitor tombar para trás, despencando sobre a quina de um baú de madeira. 

O impacto foi danoso, mas ele voltou rápido para a posição de ataque. Nem percebeu, na queda, o telefone celular escapando do bolso do casaco. O aparelho rolou para um canto e escorregou para baixo da cômoda. 

Heitor sentia uma dor desgraçada na região da costela. O medo, entretanto, superava qualquer coisa. Ouviu o grunhido do homem caído, em convulsão, tentando se levantar, e não quis arriscar. Juntou as duas mãos na haste do castiçal, firmou o corpo, olhou pra cara do sujeito e bateu de novo. Com toda a força que a raiva e o pavor lhe davam. O fulano só fez “Rã!” e ficou largado no chão. 

Meio ajoelhado, Heitor quis se levantar depressa para ver Renata. As costas doíam demais. Pôs a mão para pesquisar o estrago. Havia um afundamento na região. Se ocorrera fratura, devia ser interna, porque nenhum pedaço de osso esticava lasca para fora da carne. Suportou a dor e, agachado, curvado, foi até a cama dela.

Naquele momento morreu pela primeira vez.

Renata, sentada na cama, lívida, de olhos arregalados, segurava o lençol ao peito. Na mão dela, duas notas de dinheiro. Sobre a cama, a carteira aberta do homem.

Demorou a entender. Deu-se conta, enfim. Naquele relacionamento, viu e não enxergou e por não ter enxergado não viu.

Zunia um vento forte na cara dele. Um estupor, o mundo girando, imagens rapidíssimas desfilando numa tela imaginária de cinema. Renata e ele passeando pelas lojas, ela com o dinheiro na mão, ela gastando dinheiro, ela saindo para a faculdade e nunca o deixando acompanhá-la, o corpo no chão, os dois saindo à tarde, ele sozinho em casa à noite, pensando nela, a carteira, ela na cama, o morto.

Virou-se, desceu para a rua e tentou correr. Não pôde. A dor era terrível. Respirava com imensa dificuldade. Pulmão perfurado, possivel- mente. Arrastou-se para casa. No caminho, apenas a indiferença das pessoas torcendo o nariz, decerto supondo mais um bêbado ou drogado que mal conseguia ficar em pé. Naquela hora escura, passavam, desviavam-se, nem olhavam direito, ou veriam o rosto contraído de aflição. Parou por diversas vezes, apoiando-se nas paredes e nos muros. Cada passo movimentava músculos, nervos, articulações. E cada movimento o fazia sofrer dores horrorosas. Enxergou a casa. Próxima, e tão difícil de alcançar. Chegou, afinal, respirando agulhas em vez de ar. Chegou. Tropeçou. Equilibrou-se. Entrou, aos trambolhões, e deitou-se.

Semana Ruth Guimarães

A Secretaria de Cultura de Cachoeira Paulista apresenta:


de 22/08 a 29/08        no Centro cultural
            Semana Ruth Guimarães

22/08  sábado Abertura 20h00
Lançamento da revista Ângulo - especial Ruth Guimarães
Folia de Reis dos Macacos
Folia de Reis de Guaratinguetá

23/08  domingo a partir das 14h00
Contadores de história
Eliane Ramos
Cíntia Moreira
Cíntia Carbone
Rosana Farabello
Paulo Roxo Barja
Rosana Abreu
Grupo de teatro do Colégio Objetivo de Passa Quatro


24/08                segunda-feira 19h00
Palestra Joaquim Maria Botelho
São Benedito - gente como a gente



25/08               terça-feira  19h00
Café Filosófico - Kátia Tavares
Pedagogia Waldorff

26/08               quarta-feira  19h00
Oficina de redação poética, com Juraci de Faria Condé
Poesia & Fotografia: por uma educação da sensibilidade


27/08             quinta-feira   19h00
Apresentação musical, grupo Tá Ruim mas tá bom! Com Celso Capucho Cruz

28/08               sexta-feira 19h00
Filme Somos todos Sacys

29/08               sábado            20h00
Encerramento
Lançamento do livro de crônicas, realizado pela ACLA - Dona Ruth - Crônicas de Ruth Guimarães
A palavra poética: declamação de Tarcísio Bregalda e Angelo Milani de "O cão sem plumas", de Cabral de Mello Netto e "A matéria amada" de Severino Antônio.
Marcelo Nanah e seus alunos apresentando Jovelina, canção pesquisada pela folclorista. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Bruxa por quê?

Júnia Botelho

A casa esteve sempre aberta, janelas escancaradas. Houve tempo em que não havia chaves, nem portão de entrada, só mesmo uma cerca viva (mas com arame farpado!)

A casa sempre teve muita luz, recebe o sol o dia todo. É sempre muito cheia, o dia todo um grito na porta: dona Ruuuuuuth! A senhora tem maravilha? A senhora tem rosa branca? Quer comprar uma galinha? Quer comprar um saco de esterco? Pode me arrumar uns limões? A senhora pode falar sobre o dia do folclore? sobre a mão fria? sobre o padre Juca? A senhora escreve uma coisinha para a inauguração da praça? para a feirinha de conhecimentos do colégio? Dá uma mãozinha na revisão da tese? Faz uma palestra em São Francisco dos Pinhais?

E sempre ia, dona Ruth, devagarona, atender o chamado. Fosse quem fosse, era atendido.

Falava pouco, observava muito. Ouvia tudo. E recontava. Várias vezes, e com o mesmo sabor. Saborosas eram suas histórias. A cada vez ouvíamos com a mesma atenção. Para nos deliciarmos com suas expressões, seus gestos e sua risada, que estourava infalivelmente no final como se fosse a primeira vez. Porque era a primeira vez.

Por que não as decorei se as ouvia tanto? Eu gostaria de saber de cor pelo menos aquelas de que eu mais gostava. Eu pedia toda hora a do “se me repugna”. Ela não se fazia rogar:

“Os seminaristas estavam tendo sabatina, e um deles não tinha estudado. Um colega, vendo sua preocupação, disse-lhe para prestar atenção nas respostas do companheiro que estava na sua frente e pronto! era só repetir. Era a vez do da frente que tirou das mãos do seu examinador o ‘ponto’: compaixão. O examinador perguntou:

- Se uma mosca caísse no seu pote de mel, o que o senhor faria?”

- Se me repugna eu pego a mosca com a pontinha dos dedos. Se não me repugna, eu tomo o mel com mosca e tudo!

Muito bem.

É a vez do nosso personagem. Ele tira o ‘ponto’ e recebe a fraternidade. Sua pergunta foi:

- Se o senhor vê um burro atolado em um barril de melaço, o que faria?

E a resposta, naturalmente, é: 

- Se me repugna eu pego o burro com a pontinha dos dedos. Se não me repugna, eu bebo o melaço com burro e tudo!”

E então se emendavam as histórias de padres, verídicas como a do padre José que tomava café de colher, pois só punha uma gotinha na camada de açúcar, a do padre italiano, que no dia da paixão de Cristo homenageava o encontro da “mãe com o filho da mãe”, o mesmo padre que saía do confessionário e esbravejava com o seu fiel, querendo saber quem era aquele ordinário que estava roubando o pomar da igreja.

Os dias eram uma festa nessa casa grande, cheia de luz, cheia de gente, cheia de histórias.

Ela atendia a todos, apesar de saber ler nas pessoas suas mazelas e seus desatinos.

Dona Ruth guardava um segredo: ela tinha uma maldição. Absorvia dos homens sua essência. Sabia quem eles eram despidos de seus muitos eus, de suas vestes dominicais. Ela via o de dentro, o que somos para nós mesmos, aqueles que não mostramos para o espelho temendo nossa face mais obscura, a que mostra nossas ambições, nossas invejas, nossos egoísmos, nossos desejos, nossas insanidades, nossas superioridades e inferioridades, nossa baixa autoestima, nossas intenções.

Para nós mesmos, no espelho, acendemos uma luz. Mascaramos quem somos.

Bruxaria é mais do que uma crença, é um saber. Um conhecimento. Dona Ruth não só entendia, mas via. Viu os demônios de cada um de nós e aceitou sua maldição. E por aceitar, ganhou a companhia dos demônios menores, que a divertiam, com quem conversava e brincava. Não eram amigos imaginários, não eram fruto de sua imaginação, não era louca. Apenas via. Sabia. Ela não tentou convencer ninguém – e todos sabiam: sentiam-se pegos na armadilha. E as presas não sabiam como expressar essa sensação, esse estranho sentimento de serem apoderados por si mesmos. Ela se apoderava do que tínhamos de pior e então cozia histórias. Amassava o barro original e colocava o punhado muito encaroçado no caminho. Em personagem. Contava histórias fazendo-se personagem e ria de um riso largo, contagioso, por isso aceitávamos todos, os crentes e os descrentes. Porque verdadeiro. Cheio de magia e encantador e verdadeiro.

Eu queria as cinzas desta casa velha espalhadas no rio Paraíba. Queria eu também fazer um feitiço para recontar da mesma forma, para não morrer ainda.

Eu também recebi a maldição, mas o medo que senti afastou-a de mim para todo o sempre. Eu, hein? Para ganhar essa visão é preciso uma paz infinita, um equilíbrio total e uma perfeita condescendência para com o gênero humano, coisas de dona Ruth. Sabenças de dona Ruth.

Estava cozinhando o livro da bruxa. Não tinha pressa. Teria todo o tempo do mundo. Seria eterna. Faria quantos livros quisesse: o do tio Darwin, o “Um tal de Zé”, recolheria os mil contos brasileiros, reuniria suas crônicas, comporia a Medicina Folclórica e Zootecnia que já tem mais de mil páginas grampeadas, coladas, pesquisadas, coletadas. E faria mais algumas outras coisas. Na sua máquina datilográfica.

Mas a vida era um feitiço maior do que o da bruxa. Engelhou seus dedos, embaraçou suas ideias. Aquela que via através das pessoas não sabia mais quem era. Guardou todas as histórias em si, receptáculo fechado pelo tempo.

Qual o motivo dessa risada? Acho que ainda ri do que vê nas pessoas, de suas mazelas, de seus desatinos. Gargalha. Não consegue parar. O que será que viu? Que ouviu?

Teve muito tempo, sim. Mas teve que fazer escolhas. Deixou seus papeis se amontoando em pilhas nuns armários enferrujando e passou a cuidar de gente. De formar pessoas.

Ela era contadora de histórias. Seguiu. Para o nada. Com tudo. Consigo e com Deus. Não sei se acreditava em um Deus. Acreditar bastaria?

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Aos 78 anos, seu Botelho diz querer voltar a fotografar

Claudia Varella e Jurandir Rodrigues
Primeira Página, Cachoeira Paulista, 16 de janeiro de 1999

O fotógrafo José Botelho Netto disse, emocionado, que sonha em voltar a fotografar. “Tenho vontade de voltar à fotografia, mas não tenho coragem de pegar nas máquinas, de escolher as poses, os melhores ângulos”, afirmou ele.
Seu Botelho, ou seu Zizinho, como também é mais conhecido, completou 78 anos nesta sexta-feira, dia 15. Sem fotografar há dois anos, ele comemorou 50 anos de profissão em 1997 ao lado da mulher, a escritora e folclorista Ruth Guimarães. Os dois, que são primos de primeiro grau, vão completar 50 anos de casamento no próximo dia 15 de março. “Tudo que sou, devo a Ruth”, declarou.
Abatido por um câncer de próstata descoberto há três anos, seu Botelho concedeu uma entrevista a Primeira Página na sexta-feira, dia 08, em sua casa próximo ao viaduto, defronte da linha férrea. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Namoro com Ruth
Aqui tinha um corredor de casas muito pobres. Sou seis meses mais novo que ela. Um dia choveu e molhou a malha onde eu dormia. Então, minha tia, que é a mãe dela e minha madrinha, me colocou no bercinho de Ruth. Nosso namoro começou assim.
Mais tarde, Ruth foi fazer escola em São Paulo e passou um ano em casa. Aí nos cerramos um namoro, os dois com 14 anos. Começamos a trabalhar juntos com 25 anos, eu como fotógrafo e ela como repórter. Eu gostava de trabalhar com ela.

Casamento
Nós nos casamos com 28 anos. Nosso casamento faz 50 anos no dia 15 de março.

Filhos
Tivemos nove filhos. Os três mais velhos morreram (pausa). Eu não gosto de lembrar desses três filhos. O Antonio José era doente, tinha problema nos rins. A mais velha era a Marta. Depois, vinha o Rubinho. O meu tesouro são meus filhos. Eles são tão bons! Nunca pensei que tivesse uma velhice tão bonita. O Judá (um dos filhos) toma conta de mim, me dá remédios nas horas certas. Não tem nenhum melhor que o outro.

Casar primo com primo
Antes de nos casarmos, fui ao médico, perguntei se não fazia mal me casar com uma prima. Ele falou que não tinha problema, mas que, se houvesse alguma coisa, traria dificuldades para os filhos. Todos os filhos nossos são excepcionais. É mais forte num dos que nos outros, mas todos são excepcionais. Porém, não queríamos outros filhos.

Preconceito
Não houve resistências dentro das nossas famílias quando nos casamos. A minha mãe gostava da Ruth. Nós começamos a sair juntos e foi em Suzano que o namoro se firmou, quando começamos a trabalhar juntos.

Ruth
Tudo que eu sei, eu devo a Ruth. Tudo que eu sou, é a Ruth. Ela me ensinou a ler. Nossa vida foi uma aventura tão grande, uma vida tão dura.

Deus
Houve um dia que eu saí desesperado, cheguei à casa dela (da Ruth) umas 11 horas da noite. Eu perguntei para ela assim: Ruth, existe Deus? Ela disse: isso é com você. Os intelectuais não acreditam em Deus. Eu era filho de Maria, era religioso. Comecei a ler o livro “Apenas um coração Solitário”, que não tem nada com religião. E foi neste livro que descobri que não havia Deus. Eu tinha uns 22 anos. A gente chega a essa crença sozinho, e depois se firma.

Religião
Eu respeito as religiões, tenho amigos espíritas muito bons, tenho amigos católicos também. Ninguém sabe que a gente não tem religião nem acredita em Deus. Nunca falei de religião para os filhos. Nem bem nem mal. Se eles querem ir a um centro espírita, vão; a uma igreja protestante, vão. Eles tem a mesma crença; descobriram por si mesmos.

Livros
Ainda leio muito. Sempre li muito. A Ruth lê ficção. Eu leio revistas cientificas, leio filósofos, como Platão e Aristóteles.

Interesse pela fotografia
Estava atravessando a Praça da República (em São Paulo) junto com a Ruth. Ela falou assim: olha folha desta arvore; parece uma mão. Foi assim que descobri a fotografia. Quem me descobriu mesmo foi a irmã Olga (Olga de Sá, diretora da Fatea). Ela me deu todo apoio (eu já era fotógrafo há muitos anos).

Início da profissão
Tinha uns 20 e poucos anos quando comecei a trabalhar com fotografia. Depois de 97, não fotografei mais. Eu tenho máquina, tudo guardado ainda.

O fotógrafo
Eu sempre fotografei assim: gostava de alguma coisa e fazia a foto. O fotógrafo tem o olho mais agudo, tem o dom de enxergar alguma coisa de uma forma diferente.

Melhores fotos
Cada uma que faço, eu me empenho, deixo corpo, deixo alma, deixo tudo ali, na foto. Gosto de fotografar o rio (Paraíba). Fiz milhares, milhares de fotos nesses 50 anos de carreira.

A foto que não fez
A fotografia bonita que eu não tirei foi do então governador de Goiás durante a construção de Brasília. Eu cheguei a Brasília naquela época e vi um homem carregando uma viga nas costas. Parecia que ele era um super-home.
Aí ele limpou a mão para me cumprimentar. Era o governador de Goiás. Ele estava ajudando na construção de Brasília.

Prêmios e exposições
Nunca dei importância para prêmios. Ganhei alguns prêmios regionais. Mas nunca liguei. Agora que eu sei que sou bom. Fiz exposições no Santa Teresa e na Casa de Cultura de Lorena. Tinha vontade de fazer uma exposição no Sesc de Guará.

Dinheiro
Com a fotografia, dava para sobreviver. Eu fazia 3x4 muito bem, sabe? Ali eu ganhava dinheiro.

Por que parou?
Parei porque não tenho coragem de pegar na máquina. O motivo foi a doença.


Seu sucessor
Não tenho visto fotografias de ninguém. Eu me lembro do Celinho (Célio Ferreira). Nós fizemos uma exposição juntos. Quem é bom fotógrafo aqui em Cachoeira é o Robertinho (Roberto Godoy). Nunca vi uma foto dele, mas sei que ele é bom fotógrafo.

A doença
Eu tenho câncer. E tive a doença com estresse, o que agravou minha situação. O médico me falou que essa doença não vai se resolver assim tão fácil. Mas agora eu tenho 78 anos. Saí da fase de estresse. Agora que eu encontrei um médico bom. Comecei um tratamento com ele. Tomo dois comprimidos de Androcur por dia. Estava deprimido, agora estou bem melhor. Sabe do que preciso? De vocês, de bons amigos. O Severino (professor Severino Antonio Moreira Barbosa) é meu bom grande amigo. Eu fico muito fechado. Quando chegam os amigos, eu fico tão alegre, fico animado. A presença dos amigos é um grande remédio para mim.

Morte

Não tenho medo da morte. Eu queria morrer. Eu queria, agora não quero mais. Ainda tenho vontade de fotografar, mas não posso, não tenho coragem de pegar na máquina, de sair, de escolher as poses.