quarta-feira, 20 de julho de 2016

Nossa Língua - Ruth Guimarães

Este vídeo do programa "Nossa Língua" uma parte da entrevista com a escritora Ruth Guimarães, especialista em contos populares. A escritora fala sobre a personagem saci, e outros personagens do folclore brasileiro; conta como escreveu seu livro a partir das histórias de Pedro Malazarte; comenta sobre o papel de um contador de história; e, para finalizar, conta a história de João Brandão. 
Link para acessar: http://www.portugues.seed.pr.gov.br/modules/video/showVideo.php?video=8537

Produção: TV Cultura

Idioma: Português

Palavras-chave: Contos populares. Folclore brasileiro. Contador de histórias. Saci. João Brandão.

Duração: 14min41s

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Costelas de Heitor Batalha - degustação


Deus é menino em mil sertões. 

– Guimarães Rosa – 

A morning shows the day, as the child shows the man. 

– Milton – 

Toute douleur qui n’aide personne est absurde. 

– André Malraux – 

Caminante, no hay camino Se hace camino al andar 

– Antonio Machado – 



APRESENTAÇÃO 

A proliferação de livros para o universo infanto-juvenil no mercado editorial continua gerando labirintos, chaves que abrem a porta a experiências de leitura sutis, contundentes, estremecedoras. Cada vez mais encontramos livros que deixam perguntas que propiciam o questionamento, a reflexão, a investigação, que nos levam a pensar que a literatura passa a ser vista como um oceano caótico ansioso de classificação, o que nos força a um exercício inútil de distinguir os bons dos maus escritores. E realmente, classificar é tão inútil como inevi- tável. Um impulso do intelecto ocioso que busca ou inventa ordem onde não há mais que caos e contingência. Um exercício cruel e banal, mas, no fundo, potencialmente proveitoso, e proveitoso porque acaba por nos ajudar a descobrir coisas, detalhes inadvertidos, elementos que de outro modo permaneceriam ignorados, realidades que não são verdadeiras e contudo existem. Por outro lado, essa literatura, excetuando os textos de caráter educativo, parece dar sinais de que começa a vivenciar um bom momento; os organismos oficiais têm tomado consciência de sua impor- tância na formação da personalidade, como fomentadora da criatividade e transmissora de valores; escritores, ilustradores e editores se tem dado conta do número potencial de leitores dentro deste segmento da população e da exigência dos mesmos e, conscientes de que o público se não for instigado à leitura quando jovem, dificilmente o será depois. 

Hoje encontramos escritores que criam uma maneira claramente identificável de fazer literatura; há os proustianos, os cortazarianos, os joyceanos, gongorianos e beckettianos; os que vivem a elogiar a sordidez dos dias, os que vivem da emulação, enfim. Mas há principalmente aqueles que considero escritores com “e” maiúsculo, porque de algum modo o bom escritor é aquele que transcende a vontade de emulação ao descobrir a relação entre essa parte pessoal da linguagem e a linguagem do mundo, quando toma consciência de que as palavras e sua acomo- dação devem responder a uma maneira singular de apreender o mundo, uma maneira única porque emana dessa historia irrepetível que é uma existência humana e tudo, tudo o que esta carrega. Dentre esses escri- tores preparo um lugar para Joaquim Maria Botelho, que sem procurar novidades acaba encontrando-as. Novidades sem modismos, em seu “Costelas de Heitor Batalha”. 

À leitura do seu livro remeto-me à lembrança de Nietzsche quando diz que “a riqueza da vida se traduz pela riqueza dos gestos”; e que há “que aprender a considerar tudo como um gesto: a longitude e a cesura das frases, a pontuação, as respirações; também a eleição das palavras, e a sucessão dos argumentos.” 

É com esse conceito que findo a leitura desse livro onde Joaquim Maria Botelho trabalha com personagens que somos todos nós, defeituosos, arranhados, sofridos, mas também elegantes, belos, viventes de um mundo que está à nossa porta. Um livro cujas páginas se abrem não apenas para o público a que se destina. É amplo, um mundo dentro de um mundo com todas as mazelas e grandezas que o tempo oferece; um desfilar de imagens bem-acentuadas, frases belamente construídas, consciência de que “a gente cresce, aprende a hipocrisia social e aí sim tudo na vida fica mais complicado.”; de que vivemos sempre a nos perguntar sobre o tempo, os dias, em querer saber quanto tempo duram as coisas”, de se conscientizar de que “o amor não se compra, nem se vende; amor, a gente dá, como a boa ajuda que constrói a gratidão.” 

Joaquim Maria Botelho já deu provas suficientes de que é um excelente jornalista, e nem surpreende ao mostrar-se escritor. O que precisa, com esse dom que me parece atávico, é se mostrar mais, porque nós que vivemos de e para a leitura e escritura estamos sempre famintos por um bom texto. E espero francamente que o leitor atente para sua obra que mais que tudo é um chamamento para o exercício da escrita. 

“Costelas de Heitor Batalha” é, sem dúvida, um dos bons livros que li nos últimos tempos e me faz afirmar que seu autor mostrou-se muito feliz ao enfrentar essa dura batalha de escrever para um público tão exigente que é esse a que, primordialmente, se destina.

Luís Avelima 
Poeta, músico e tradutor 

PREFÁCIO 

Enquanto mostra, calmamente, a irracional sabedoria das galinhas, que não temem a cobra porque sempre souberam dominá-la, Joaquim Maria Botelho vai mostrando, no decorrer da sua narrativa espraiada, o doloroso construir do jovem Heitor Batalha (Batalha? Botelho?), ao longo de sua vida de menino interiorano. Sabiamente ele começa o texto com um momento dramático, capaz de construir suspense e manter até o fim do romance, intacta, a revelação. 

Mas, entrementes, dá-nos notícia de suas primeiras quase-aventuras amorosas de menino, do seu tatear pelo corpo da mulher desejada, das desilusões, das difíceis relações dos adolescentes com seus pais, da inces- sante procura do jovem por um modelo, que passe pela fisionomia psico- lógica do pai, mas não o imite. 

A história vai correndo pela infância, pelas férias sempre desejadas, pelos desencontros afetivos, que envolvem amigos e amadas, pelas escolas, primeiras e mais complexas, pelo ambiente político do interior paulista – e o interior paulista assoma sempre – até voltar ao primeiro incidente. 

Este seu trauma inicial é retomado num clima de sonho, devaneio, embriaguês, anestesia e delírio, que o autor, numa boa escolha, deixa morrer na incerteza. 

Um bom romance de estreia e uma estreia promissora. 

Renata Pallottini, da Academia Paulista de Letras 


Naquela noite, nada indicava tempestade. Nenhum indício de tragédia. O encontro marcado com Renata o deixava feliz, os músculos da barriga contraídos de ansiedade. Fez a barba, enfiou-se em roupa nova, e de roupa nova ele se achava um perigo, passou perfume. Demais. Penteou-se. Recuou dois passos para botar a silhueta inteira no reflexo do espelho. Penteou-se de novo. Chegou mais perto para verificar se era perceptível a espinha despontando no nariz. O moço do reflexo, ele mesmo, ou o outro que ele queria ser, especial, sublime, apaixonado, sério, terno, ostentava ar inteligente. Ajustou expressão facial diferente para cada uma dessas qualidades que planejava exibir para a moça. Experimentou o perfil. Esquerdo. Depois o direito, o lado melhor. Ergueu a sobrancelha, num gesto de conquistador, imaginando a impressão que causaria, depois caçoou bobo de si próprio. Não se incomodou com a cicatriz na testa – recuerdos de um voo de cima do muro ao chão, quando tinha cinco anos, ganhou uma capa de super-homem e achou ter ganhado superpoderes junto com a fantasia. 

Passou a mão por baixo do queixo e foi atrás do aparelho de barba, para raspar um pouco melhor o começo do pescoço. Chegou o rosto bem perto do vidro para inspecionar o resultado. Não resistiu ao riso, por causa dos olhos envesgados pela proximidade da imagem. Percebeu o respingo de espuma de barba na gola de camisa. Foi ao guarda-roupa, mas, caramba, não tinha outra para compor tão bem o conjunto. Voltou para o banheiro e abriu a torneira da água quente. Molhou a pontinha da toalha de rosto e se esmerou na eliminação da mancha. Esperou secar a umidade para conferir se o grave problema fora corrigido. Não se percebia quase nada. Aliás, quem visse de fora, nem notaria o ponto ínfimo. A dimensão de um problema tem proporção direta com a expectativa da pessoa. 

Haviam acertado o encontro para as nove horas, no cinema. O relógio lerdo marcava ainda sete horas e ele não aguentava mais ficar em casa. Sentou-se no sofá. Não chegou a ficar dois minutos. Foi ao compu- tador. Ligou. Uma eternidade para carregar o sistema, pouca memória virtual, talvez, o técnico não resolveu de vez essa lentidão, não chamo mais esse cara, tenho um amigo, esse deve conhecer melhor os segredos da informática, vou falar com ele. Desistiu no meio do processo e desligou o aparelho. Foi para a cozinha. Abriu a geladeira, sem saber o que buscar lá dentro. Fechou a porta e a cara. Ah! que se dane! 

A casa da Renata ficava perto. Ah! Sim. Na Vila Mariana, em São Paulo, muita gente ainda morava em casas, apesar do número de prédios de apartamentos brotando quase de um dia para o outro, onde antes o desavisado passante se lembraria de haver uma padaria, uma quadra de tênis, um sobradinho. Pois a Renata morava em uma dessas casas. Um bangalô antigo, bem cuidado, com pequeno jardim à frente, cercado de grades baixas, portãozinho no centro. Passara por ali várias vezes, quando começou a se interessar pela moça, havia pouco mais de dois meses. O relacionamento avançava devagar, tímido e comportado, diferente das velozes aproximações amorosas de hoje. Sabia pouca coisa da moça, a bem da verdade. Discreta, reservada, não abria o coração. Mas tinha aberto um pouquinho a blusa, no último encontro, para permitir uma rápida carícia por sobre o sutiã. Tentara invadir um pouco mais no quesito conteúdo. A moça recuara o corpo centímetros bastantes para avisar que a investida lhe parecia suficiente para o momento. 

A lembrança do contato físico causava-lhe arrepios de ansiedade. Passara por algumas experiências amorosas. Aquela, contudo, era especial. Estava cansado de se sentir obrigado a “trabalhar” relacionamentos amorosos. Tivera uma namorada inteligente e paranoica, e fora sufocado pela necessidade de se manter alerta, atento a todos os detalhes, cuidando do que dizia ou não dizia, em agonia de ser mal entendido por causa de uma careta involuntária, ou porque elevou a voz um pouquinho a mais. Não podia simplesmente agir com espontaneidade e ser entendido? Todo mundo tem direito a um ou outro momento de mau humor, ou de inconsequência, ou de ingenuidade. Basta não prejudicar ninguém, nem contrariar princípios. Cansou-se de agir sob o comando da racionalidade. Por isso, permitia-se voltar às sensações adolescentes, apesar dos vinte e três anos. 

Contando essa namorada doidinha, teve alguns grandes últimos amores para toda a vida. Com todos eles sofreu, por impetuosidade ou preci- pitação. Queria mudar, ficar mais solto e despreocupado. Começaria por treinar o sorriso. Precisava atenuar a expressão séria, que passava imagem de pessoa meio solitária e distante, que não gosta de brincadeiras. Também precisava relaxar a atitude, civilizada demais, severa demais. As pessoas podiam pensar que agia assim para esconder insegurança. 

Renata, a moça de cintura fina, tinha mistérios. Heitor decidiu mergulhar no desconhecido e não ter pressa de saber mais sobre ela. Consi- derou que a agradaria se a deixasse à vontade para falar de si. Melhor curtir cada dia, receber cada informação como se fosse um presente. Mentira! Morria de curiosidade. Havia compensações. Um breve telefonema – sempre para o celular, porque ela não concordava com isso de telefone em casa. Está certo, a gente não nasceu pra virar escravo do telefone. Mas o próprio celular ela não atendia na primeira ligação. Quase sempre dava retorno mais tarde, às vezes horas mais tarde. Você não conhece bolsa de mulher? A gente nunca encontra o celular em tempo de atender. E, além disso, no trabalho, costumo deixar no modo de vibração, por isso não percebo quando entra uma chamada. Heitor concordava, e como não concordar com aquele olhar inocente lançado para cima, com a cabeça um pouco abaixada, ar de menina frágil a pedir compreensão? 

Estava inebriado por ela. Pelo conjunto. Tom de voz, elegância, independência, beleza, a própria timidez. Sentia orgulho em andar de mãos dadas com ela pelas ruas. Embora Renata se mostrasse um pouco sem jeito com essas coisas de namoradinha. Deixava a mãozinha escor- regar de dentro da dele para colocar os cabelos para trás da orelha, um gesto típico. E encantador. Ou para trocar a bolsa de braço, ajeitar a pulseira. Devia ser constrangimento. A pessoa, quando fica um tempo longo sem namorar, perde a prática. Para um rapaz vivido como Heitor, nem a atitude dela nem a pretensa justificativa dele faziam sentido. Mas, caramba, eu não dizia que preciso parar de analisar as pessoas com tanta exigência? 

Pensou nas suas grandes paixões. Duas. Três, para ser exato – de Valentina quase nem lembrava mais. Juliana o envolvera numa situação que jamais conseguiu, de todo, absorver. Passou. Quem sabe pressões familiares a tivessem induzido. Não adiantava atormentar-se. Passou. Vitória, que pensara ser a mulher definitiva, foi um louco indecifrável enigma. A ela, ainda às vezes dedicava alguns suspiros e saudades. Achava ter amadurecido com essas duas experiências, aprendido a enfrentar as benesses e os malefícios do amor. Não aprendeu nada. Percebia isso com Renata. Costumava se achar experimentado nas alianças amorosas, mas agia em relação a ela com a timidez e a hesitação das primeiras vezes. Cada encontro é um, cada relacionamento é diferente do outro. E a gente não age com a outra pessoa de acordo com o cérebro, mas conforme a emoção ordena. Heitor começava do zero, readquiria inocência, a cada relaciona- mento. Entretanto, mesmo sem querer e sem admitir, lá no cofre do peito repousavam suspeitosas dúvidas sobre os mistérios de Renata. 

Aflito de impaciência, resolveu passar na casa dela mais cedo. Nem vou me dar ao trabalho de telefonar, porque a danadinha não vai atender. Já sei. Passo por lá, de uma vez. Fico esperando, na sala, ela se arrumar. Isso, faria isso. 

Na noite fresca de junho, de céu limpo, líquido e luminoso, ele caminhou com decisão, embora por várias vezes tivesse hesitado. Ficaria aborrecida com a chegada antecipada dele? Será que a loura cabecinha queria fazer surpresa, surgindo, como fada, à frente dele, pronta e irreto- cável? Caminhava embalado por esses pensamentos. Quando deu por si, estava diante do portão. Abriu-o, mãos de punguista, e subiu, pés de pano, a escada da varandinha. 

Tomou o cuidado de pôr o celular no modo silencioso. Não queria telefonema algum atrapalhando aquela noite. Bateu à porta, de leve, levemente, pensando no poeta Augusto Gil. Renata nem ouviria as batidas, lá de dentro, tão discretas foram. Esperou um tempo, avaliando se devia chamar outra vez. Sentia-se um tanto envergonhado. Não queria incomodar, deixar a moça aborrecida, e com isso estragar o passeio. Já estava ali, porém, espetado diante da porta. 

Bateu de novo. Ainda com timidez. Nenhuma resposta. Bateu mais forte e esperou. 

Era cedo, bobagem vir aqui com quase duas horas de antecedência, coisa mais imatura...! 

Ia virando as costas para descer a escada quando ouviu tosse de homem dentro da casa. Levou um susto! Renata morava sozinha. 

Tinha acontecido um assalto no bairro duas semanas antes, e ele temeu a possibilidade de um ladrão ter invadido a casa. Sentiu o coração batendo dentro dos ouvidos. Doido, imaginando tragédias, forçou a porta da frente. Destrancada. Empurrou-a devagarinho, botou a cara para dentro e foi entrando. Na penumbra da sala enxergou o corredor e ao fundo a porta do quarto. A pulsação galopava. Avançou, encostando-se nas paredes. Pela porta entreaberta, viu as costas de um homem. Esfriou-lhe o corpo todo e um tremor incontrolável sacudiu-o inteiro. O que viu deixou-o virado em pedra! Renata deitada na cama, sem roupas, de olhos fechados. O homem, na frente dela, em pé, arrumava a calça. Um estuprador! Tinha assaltado a casa e agora se lambuzava na agonia da vítima! 

Aterrorizado, não pensou em mais nada. Pegou a primeira coisa que pudesse servir de arma: um castiçal de ferro. Chutou a porta e pulou com raiva para cima do intruso. O fulano ainda se voltou para ver o agressor. Não teve tempo de reagir. Tomou uma pancada forte na cabeça. Sujeito resistente; no meio da queda, espirrando sangue pra todo lado, ainda achou jeito de desfechar um coice. A força do golpe fez Heitor tombar para trás, despencando sobre a quina de um baú de madeira. 

O impacto foi danoso, mas ele voltou rápido para a posição de ataque. Nem percebeu, na queda, o telefone celular escapando do bolso do casaco. O aparelho rolou para um canto e escorregou para baixo da cômoda. 

Heitor sentia uma dor desgraçada na região da costela. O medo, entretanto, superava qualquer coisa. Ouviu o grunhido do homem caído, em convulsão, tentando se levantar, e não quis arriscar. Juntou as duas mãos na haste do castiçal, firmou o corpo, olhou pra cara do sujeito e bateu de novo. Com toda a força que a raiva e o pavor lhe davam. O fulano só fez “Rã!” e ficou largado no chão. 

Meio ajoelhado, Heitor quis se levantar depressa para ver Renata. As costas doíam demais. Pôs a mão para pesquisar o estrago. Havia um afundamento na região. Se ocorrera fratura, devia ser interna, porque nenhum pedaço de osso esticava lasca para fora da carne. Suportou a dor e, agachado, curvado, foi até a cama dela.

Naquele momento morreu pela primeira vez.

Renata, sentada na cama, lívida, de olhos arregalados, segurava o lençol ao peito. Na mão dela, duas notas de dinheiro. Sobre a cama, a carteira aberta do homem.

Demorou a entender. Deu-se conta, enfim. Naquele relacionamento, viu e não enxergou e por não ter enxergado não viu.

Zunia um vento forte na cara dele. Um estupor, o mundo girando, imagens rapidíssimas desfilando numa tela imaginária de cinema. Renata e ele passeando pelas lojas, ela com o dinheiro na mão, ela gastando dinheiro, ela saindo para a faculdade e nunca o deixando acompanhá-la, o corpo no chão, os dois saindo à tarde, ele sozinho em casa à noite, pensando nela, a carteira, ela na cama, o morto.

Virou-se, desceu para a rua e tentou correr. Não pôde. A dor era terrível. Respirava com imensa dificuldade. Pulmão perfurado, possivel- mente. Arrastou-se para casa. No caminho, apenas a indiferença das pessoas torcendo o nariz, decerto supondo mais um bêbado ou drogado que mal conseguia ficar em pé. Naquela hora escura, passavam, desviavam-se, nem olhavam direito, ou veriam o rosto contraído de aflição. Parou por diversas vezes, apoiando-se nas paredes e nos muros. Cada passo movimentava músculos, nervos, articulações. E cada movimento o fazia sofrer dores horrorosas. Enxergou a casa. Próxima, e tão difícil de alcançar. Chegou, afinal, respirando agulhas em vez de ar. Chegou. Tropeçou. Equilibrou-se. Entrou, aos trambolhões, e deitou-se.

Semana Ruth Guimarães

A Secretaria de Cultura de Cachoeira Paulista apresenta:


de 22/08 a 29/08        no Centro cultural
            Semana Ruth Guimarães

22/08  sábado Abertura 20h00
Lançamento da revista Ângulo - especial Ruth Guimarães
Folia de Reis dos Macacos
Folia de Reis de Guaratinguetá

23/08  domingo a partir das 14h00
Contadores de história
Eliane Ramos
Cíntia Moreira
Cíntia Carbone
Rosana Farabello
Paulo Roxo Barja
Rosana Abreu
Grupo de teatro do Colégio Objetivo de Passa Quatro


24/08                segunda-feira 19h00
Palestra Joaquim Maria Botelho
São Benedito - gente como a gente



25/08               terça-feira  19h00
Café Filosófico - Kátia Tavares
Pedagogia Waldorff

26/08               quarta-feira  19h00
Oficina de redação poética, com Juraci de Faria Condé
Poesia & Fotografia: por uma educação da sensibilidade


27/08             quinta-feira   19h00
Apresentação musical, grupo Tá Ruim mas tá bom! Com Celso Capucho Cruz

28/08               sexta-feira 19h00
Filme Somos todos Sacys

29/08               sábado            20h00
Encerramento
Lançamento do livro de crônicas, realizado pela ACLA - Dona Ruth - Crônicas de Ruth Guimarães
A palavra poética: declamação de Tarcísio Bregalda e Angelo Milani de "O cão sem plumas", de Cabral de Mello Netto e "A matéria amada" de Severino Antônio.
Marcelo Nanah e seus alunos apresentando Jovelina, canção pesquisada pela folclorista. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Bruxa por quê?

Júnia Botelho

A casa esteve sempre aberta, janelas escancaradas. Houve tempo em que não havia chaves, nem portão de entrada, só mesmo uma cerca viva (mas com arame farpado!)

A casa sempre teve muita luz, recebe o sol o dia todo. É sempre muito cheia, o dia todo um grito na porta: dona Ruuuuuuth! A senhora tem maravilha? A senhora tem rosa branca? Quer comprar uma galinha? Quer comprar um saco de esterco? Pode me arrumar uns limões? A senhora pode falar sobre o dia do folclore? sobre a mão fria? sobre o padre Juca? A senhora escreve uma coisinha para a inauguração da praça? para a feirinha de conhecimentos do colégio? Dá uma mãozinha na revisão da tese? Faz uma palestra em São Francisco dos Pinhais?

E sempre ia, dona Ruth, devagarona, atender o chamado. Fosse quem fosse, era atendido.

Falava pouco, observava muito. Ouvia tudo. E recontava. Várias vezes, e com o mesmo sabor. Saborosas eram suas histórias. A cada vez ouvíamos com a mesma atenção. Para nos deliciarmos com suas expressões, seus gestos e sua risada, que estourava infalivelmente no final como se fosse a primeira vez. Porque era a primeira vez.

Por que não as decorei se as ouvia tanto? Eu gostaria de saber de cor pelo menos aquelas de que eu mais gostava. Eu pedia toda hora a do “se me repugna”. Ela não se fazia rogar:

“Os seminaristas estavam tendo sabatina, e um deles não tinha estudado. Um colega, vendo sua preocupação, disse-lhe para prestar atenção nas respostas do companheiro que estava na sua frente e pronto! era só repetir. Era a vez do da frente que tirou das mãos do seu examinador o ‘ponto’: compaixão. O examinador perguntou:

- Se uma mosca caísse no seu pote de mel, o que o senhor faria?”

- Se me repugna eu pego a mosca com a pontinha dos dedos. Se não me repugna, eu tomo o mel com mosca e tudo!

Muito bem.

É a vez do nosso personagem. Ele tira o ‘ponto’ e recebe a fraternidade. Sua pergunta foi:

- Se o senhor vê um burro atolado em um barril de melaço, o que faria?

E a resposta, naturalmente, é: 

- Se me repugna eu pego o burro com a pontinha dos dedos. Se não me repugna, eu bebo o melaço com burro e tudo!”

E então se emendavam as histórias de padres, verídicas como a do padre José que tomava café de colher, pois só punha uma gotinha na camada de açúcar, a do padre italiano, que no dia da paixão de Cristo homenageava o encontro da “mãe com o filho da mãe”, o mesmo padre que saía do confessionário e esbravejava com o seu fiel, querendo saber quem era aquele ordinário que estava roubando o pomar da igreja.

Os dias eram uma festa nessa casa grande, cheia de luz, cheia de gente, cheia de histórias.

Ela atendia a todos, apesar de saber ler nas pessoas suas mazelas e seus desatinos.

Dona Ruth guardava um segredo: ela tinha uma maldição. Absorvia dos homens sua essência. Sabia quem eles eram despidos de seus muitos eus, de suas vestes dominicais. Ela via o de dentro, o que somos para nós mesmos, aqueles que não mostramos para o espelho temendo nossa face mais obscura, a que mostra nossas ambições, nossas invejas, nossos egoísmos, nossos desejos, nossas insanidades, nossas superioridades e inferioridades, nossa baixa autoestima, nossas intenções.

Para nós mesmos, no espelho, acendemos uma luz. Mascaramos quem somos.

Bruxaria é mais do que uma crença, é um saber. Um conhecimento. Dona Ruth não só entendia, mas via. Viu os demônios de cada um de nós e aceitou sua maldição. E por aceitar, ganhou a companhia dos demônios menores, que a divertiam, com quem conversava e brincava. Não eram amigos imaginários, não eram fruto de sua imaginação, não era louca. Apenas via. Sabia. Ela não tentou convencer ninguém – e todos sabiam: sentiam-se pegos na armadilha. E as presas não sabiam como expressar essa sensação, esse estranho sentimento de serem apoderados por si mesmos. Ela se apoderava do que tínhamos de pior e então cozia histórias. Amassava o barro original e colocava o punhado muito encaroçado no caminho. Em personagem. Contava histórias fazendo-se personagem e ria de um riso largo, contagioso, por isso aceitávamos todos, os crentes e os descrentes. Porque verdadeiro. Cheio de magia e encantador e verdadeiro.

Eu queria as cinzas desta casa velha espalhadas no rio Paraíba. Queria eu também fazer um feitiço para recontar da mesma forma, para não morrer ainda.

Eu também recebi a maldição, mas o medo que senti afastou-a de mim para todo o sempre. Eu, hein? Para ganhar essa visão é preciso uma paz infinita, um equilíbrio total e uma perfeita condescendência para com o gênero humano, coisas de dona Ruth. Sabenças de dona Ruth.

Estava cozinhando o livro da bruxa. Não tinha pressa. Teria todo o tempo do mundo. Seria eterna. Faria quantos livros quisesse: o do tio Darwin, o “Um tal de Zé”, recolheria os mil contos brasileiros, reuniria suas crônicas, comporia a Medicina Folclórica e Zootecnia que já tem mais de mil páginas grampeadas, coladas, pesquisadas, coletadas. E faria mais algumas outras coisas. Na sua máquina datilográfica.

Mas a vida era um feitiço maior do que o da bruxa. Engelhou seus dedos, embaraçou suas ideias. Aquela que via através das pessoas não sabia mais quem era. Guardou todas as histórias em si, receptáculo fechado pelo tempo.

Qual o motivo dessa risada? Acho que ainda ri do que vê nas pessoas, de suas mazelas, de seus desatinos. Gargalha. Não consegue parar. O que será que viu? Que ouviu?

Teve muito tempo, sim. Mas teve que fazer escolhas. Deixou seus papeis se amontoando em pilhas nuns armários enferrujando e passou a cuidar de gente. De formar pessoas.

Ela era contadora de histórias. Seguiu. Para o nada. Com tudo. Consigo e com Deus. Não sei se acreditava em um Deus. Acreditar bastaria?

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Aos 78 anos, seu Botelho diz querer voltar a fotografar

Claudia Varella e Jurandir Rodrigues
Primeira Página, Cachoeira Paulista, 16 de janeiro de 1999

O fotógrafo José Botelho Netto disse, emocionado, que sonha em voltar a fotografar. “Tenho vontade de voltar à fotografia, mas não tenho coragem de pegar nas máquinas, de escolher as poses, os melhores ângulos”, afirmou ele.
Seu Botelho, ou seu Zizinho, como também é mais conhecido, completou 78 anos nesta sexta-feira, dia 15. Sem fotografar há dois anos, ele comemorou 50 anos de profissão em 1997 ao lado da mulher, a escritora e folclorista Ruth Guimarães. Os dois, que são primos de primeiro grau, vão completar 50 anos de casamento no próximo dia 15 de março. “Tudo que sou, devo a Ruth”, declarou.
Abatido por um câncer de próstata descoberto há três anos, seu Botelho concedeu uma entrevista a Primeira Página na sexta-feira, dia 08, em sua casa próximo ao viaduto, defronte da linha férrea. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Namoro com Ruth
Aqui tinha um corredor de casas muito pobres. Sou seis meses mais novo que ela. Um dia choveu e molhou a malha onde eu dormia. Então, minha tia, que é a mãe dela e minha madrinha, me colocou no bercinho de Ruth. Nosso namoro começou assim.
Mais tarde, Ruth foi fazer escola em São Paulo e passou um ano em casa. Aí nos cerramos um namoro, os dois com 14 anos. Começamos a trabalhar juntos com 25 anos, eu como fotógrafo e ela como repórter. Eu gostava de trabalhar com ela.

Casamento
Nós nos casamos com 28 anos. Nosso casamento faz 50 anos no dia 15 de março.

Filhos
Tivemos nove filhos. Os três mais velhos morreram (pausa). Eu não gosto de lembrar desses três filhos. O Antonio José era doente, tinha problema nos rins. A mais velha era a Marta. Depois, vinha o Rubinho. O meu tesouro são meus filhos. Eles são tão bons! Nunca pensei que tivesse uma velhice tão bonita. O Judá (um dos filhos) toma conta de mim, me dá remédios nas horas certas. Não tem nenhum melhor que o outro.

Casar primo com primo
Antes de nos casarmos, fui ao médico, perguntei se não fazia mal me casar com uma prima. Ele falou que não tinha problema, mas que, se houvesse alguma coisa, traria dificuldades para os filhos. Todos os filhos nossos são excepcionais. É mais forte num dos que nos outros, mas todos são excepcionais. Porém, não queríamos outros filhos.

Preconceito
Não houve resistências dentro das nossas famílias quando nos casamos. A minha mãe gostava da Ruth. Nós começamos a sair juntos e foi em Suzano que o namoro se firmou, quando começamos a trabalhar juntos.

Ruth
Tudo que eu sei, eu devo a Ruth. Tudo que eu sou, é a Ruth. Ela me ensinou a ler. Nossa vida foi uma aventura tão grande, uma vida tão dura.

Deus
Houve um dia que eu saí desesperado, cheguei à casa dela (da Ruth) umas 11 horas da noite. Eu perguntei para ela assim: Ruth, existe Deus? Ela disse: isso é com você. Os intelectuais não acreditam em Deus. Eu era filho de Maria, era religioso. Comecei a ler o livro “Apenas um coração Solitário”, que não tem nada com religião. E foi neste livro que descobri que não havia Deus. Eu tinha uns 22 anos. A gente chega a essa crença sozinho, e depois se firma.

Religião
Eu respeito as religiões, tenho amigos espíritas muito bons, tenho amigos católicos também. Ninguém sabe que a gente não tem religião nem acredita em Deus. Nunca falei de religião para os filhos. Nem bem nem mal. Se eles querem ir a um centro espírita, vão; a uma igreja protestante, vão. Eles tem a mesma crença; descobriram por si mesmos.

Livros
Ainda leio muito. Sempre li muito. A Ruth lê ficção. Eu leio revistas cientificas, leio filósofos, como Platão e Aristóteles.

Interesse pela fotografia
Estava atravessando a Praça da República (em São Paulo) junto com a Ruth. Ela falou assim: olha folha desta arvore; parece uma mão. Foi assim que descobri a fotografia. Quem me descobriu mesmo foi a irmã Olga (Olga de Sá, diretora da Fatea). Ela me deu todo apoio (eu já era fotógrafo há muitos anos).

Início da profissão
Tinha uns 20 e poucos anos quando comecei a trabalhar com fotografia. Depois de 97, não fotografei mais. Eu tenho máquina, tudo guardado ainda.

O fotógrafo
Eu sempre fotografei assim: gostava de alguma coisa e fazia a foto. O fotógrafo tem o olho mais agudo, tem o dom de enxergar alguma coisa de uma forma diferente.

Melhores fotos
Cada uma que faço, eu me empenho, deixo corpo, deixo alma, deixo tudo ali, na foto. Gosto de fotografar o rio (Paraíba). Fiz milhares, milhares de fotos nesses 50 anos de carreira.

A foto que não fez
A fotografia bonita que eu não tirei foi do então governador de Goiás durante a construção de Brasília. Eu cheguei a Brasília naquela época e vi um homem carregando uma viga nas costas. Parecia que ele era um super-home.
Aí ele limpou a mão para me cumprimentar. Era o governador de Goiás. Ele estava ajudando na construção de Brasília.

Prêmios e exposições
Nunca dei importância para prêmios. Ganhei alguns prêmios regionais. Mas nunca liguei. Agora que eu sei que sou bom. Fiz exposições no Santa Teresa e na Casa de Cultura de Lorena. Tinha vontade de fazer uma exposição no Sesc de Guará.

Dinheiro
Com a fotografia, dava para sobreviver. Eu fazia 3x4 muito bem, sabe? Ali eu ganhava dinheiro.

Por que parou?
Parei porque não tenho coragem de pegar na máquina. O motivo foi a doença.


Seu sucessor
Não tenho visto fotografias de ninguém. Eu me lembro do Celinho (Célio Ferreira). Nós fizemos uma exposição juntos. Quem é bom fotógrafo aqui em Cachoeira é o Robertinho (Roberto Godoy). Nunca vi uma foto dele, mas sei que ele é bom fotógrafo.

A doença
Eu tenho câncer. E tive a doença com estresse, o que agravou minha situação. O médico me falou que essa doença não vai se resolver assim tão fácil. Mas agora eu tenho 78 anos. Saí da fase de estresse. Agora que eu encontrei um médico bom. Comecei um tratamento com ele. Tomo dois comprimidos de Androcur por dia. Estava deprimido, agora estou bem melhor. Sabe do que preciso? De vocês, de bons amigos. O Severino (professor Severino Antonio Moreira Barbosa) é meu bom grande amigo. Eu fico muito fechado. Quando chegam os amigos, eu fico tão alegre, fico animado. A presença dos amigos é um grande remédio para mim.

Morte

Não tenho medo da morte. Eu queria morrer. Eu queria, agora não quero mais. Ainda tenho vontade de fotografar, mas não posso, não tenho coragem de pegar na máquina, de sair, de escolher as poses. 

Zizinho, o mestre

Robertinho Godoy
Primeira Página
Cachoeira Paulista, 16 de janeiro de 1999


A cena fotográfica de Cachoeira é separada por dois períodos: antes e depois do mestre Zizinho. Através dos tempos muitos fotógrafos se interessaram em documentar em fotos os aspectos físico-sociais do município, deixando-nos um valioso acervo facilmente encontrado em arquivos de família e museu.
O conjunto da obra fotográfica captada ao longo de décadas pelas sensíveis lentes do professor Zizinho supera em números e em qualidade artística a soma de todos os registros históricos conhecidos sobre a cidade, tamanha a grandiosidade do legado cultural perpetrado pelo mestre que dedicou toda uma vida a retratar e a divulgar a beleza natural de Cachoeira e os costumes de sua gente.
Dotado de estilo e originalidade impares, o jornalista e professor Zizinho Botelho viu suas imagens ilustrarem publicações os mais variados jornais e revistas, para os quais foi abnegado colaborador, por vezes abrindo mão de direitos autorais em nome da popularização da arte e divulgação da cultura.
O pioneirismo de seu trabalho, sua inquietude diante das realidades humana e paisagística, o dom de possuir uma inusitada e diferenciada visão das coisas foram elementos a despertar em seus muitos admiradores e aprendizes o interesse pelo domínio das técnicas elementares da fotografia, desde o “click” inaugural aos processos finais de revelação do filme e ampliação em papel, conduzindo uma devotada legião de iniciantes a buscar o primeiro contato com o equipamento e a alcançar, após ensaiar muito, uma leitura própria da diversidade que nos rodeia.
Todos os curiosos principiantes que vislumbraram na fotografia uma forma de se expressar artisticamente certamente beberam da inesgotável fonte criativa surgida da ótica acurada e inimitável do nosso fotografo maior.
A trajetória artística e a valiosa contribuição do pioneiro Zizinho ao engrandecimento da cultura artístico-jornalística credenciam o singelo mestre a ter seu nome em indelével relevo na galeria dos valorosos cachoeirenses, a quem muito devemos pela magnitude e repercussão de sua obra, erigida por mãos sábias que tem na simplicidade um princípio maior de vida.

Dentre muitas virtudes, mestre Zizinho Botelho sempre dirigiu a todos um olhar terno, uma inefável dedicação aos amigos e alunos, e uma extraordinária doação de si à arte que abraçou: a fotografia. A despeito do exclusivo uso do papel em preto e branco na maioria de suas criações, ganhamos com o trabalho e a pessoa do mestre Zizinho um mundo de cores jamais vistas. 

domingo, 22 de junho de 2014

Acadêmicos homenageiam Ruth Guimarães com depoimentos

Hoje, 21 de junho de 2014, faz um mês da morte de Ruth Guimarães. Os amigos Acadêmicos em depoimento prestam homenagem a essa escritora que já encontra-se imortalizada por sua obra e contribuição cultural.

(Ada Pellegrini Grinover – Cadeira nº 9)
Só conheci pessoalmente Ruth Guimarães quando ingressou na Academia Paulista de Letras. Não tive o privilégio de privar de sua intimidade, como Gabriel Chalita. Mas admirava a postura sempre amável, embora reservada, da Autora de "Água funda" e de "Os filhos do medo". Sentirei muito a falta de sua presença.

(Anna Maria Martins – Cadeira nº 7 da APL)
A obra literária de Ruth Guimarães dignifica a cultura brasileira.
O percurso da escritora é abordado por críticos exigentes. Haja vista o professor Antonio Candido que fez o prefácio de "Agua Funda", seu primeiro livro.
Nós, seus leitores, acompanhamos com interesse a trama de seus textos, a linguagem fluente, o caipirês saboroso, sem exageros.
A folclorista debruça-se, entre outras obras, sobre Lendas e Fábulas do Brasil (Ed. Cultrix, 1972).
Dois anos mais tarde, publica O mundo caboclo, de Valdomiro Silveira.
A temática rural do companheiro de ofício move o interesse da intelectual.
Os dados biográficos de Ruth Guimarães informam sua valiosa trajetória e estudos, conhecimento, cultura profunda e extensa.
Termino este breve depoimento expressando a admiração pela escritora, o privilégio de ter convivido com a amiga e companheira da Academia Paulista de Letras.
Ruth Guimarães nos lega obra relevante e ocupa espaço de destaque em nosso panorama cultural.

(Antonio Penteado Mendonça – Cadeira nº 32)
Ruth Guimarães era doce. Poderia não ser, a vida pegou pesado, mas era. Doce e suave, como quem sabe que no final das contas o que vale mesmo é viver bem. Íntegra, corajosa, honesta. Além de tudo inteligente e dona de um senso de humor especial. Ruth foi uma intelectual com características relevantes que dão ao conjunto de sua obra forte consistência. Mas seu grande traço era a doçura. A forma como ouvia e como falava. Ruth foi uma lição de vida e uma boa amiga.

(Eros Roberto Grau – Cadeira nº 11)
A Ruth era um anjo de ternura. "Suas mãos de escritora traziam flores, alegrias e indicavam os caminhos do bem e da felicidade"

(Fábio Lucas – Cadeira nº 27)
Ruth Guimarães projetou-se, desde cedo, como personalidade ímpar na Literatura brasileira. Pesquisadora do Folclore desvendou organizadamente um dos pilares da formação da nacionalidade, até então ofuscada pelo preconceito. Ficcionista, levou à criação o cerne de nossa origem. Pedagoga ofertou às crianças os encantos e a massa crítica do mundo maravilhoso. Ciência e Arte, nas suas Letras, viraram entretenimento, descoberta e visão humanitária. Merece ser lida e reverenciada, a poeta e prosadora. Foge do intelectualismo exibicionista, ativa a memória coletiva e louva a luta emancipacionista da mulher.

(Dom Fernando Antônio Figueiredo – Cadeira Nº 32)
Nossa estimada e querida Ruth Guimarães alcança a feliz e misericordiosa eternidade de Deus. Com carinho, recordamos a sua presença entre nós, trajando as vestes da simplicidade e da bondade. Seu testemunho sobre a cultura popular, sinal indelével de sua sabedoria e inteligência, não deixará de nos inspirar e nos conduzir na consolidação de uma cultura solidária e aberta ao diálogo. Por meio de sua humanidade se avizinhou da divina luz, por meio da morte foi chamada a um novo nascimento, por sua serenidade continua para sempre presente em nossos corações.

(José Pastore – Cadeira nº 29)
Nossa querida Ruth nos deixa desamparados. Sua voz sobre a cultura popular do Brasil sempre foi ouvida com atenção e respeito. Afinal, era a maior autoridade nesse assunto. A sua doçura sempre foi apreciada por todos nós da Academia, pois era o carinho em pessoa. Ruth Guimarães se foi, mas deixou tudo isso em nossa lembrança. Seremos sempre gratos à sua inteligência, à sua competência e à sua amizade.

(José Renato Nalini – Cadeira nº 4)
RUTH GUIMARÃES foi uma presença etérea nas letras brasileiras. Genuína, autêntica, de raízes essencialmente brasílicas, encantava todas as idades com a sofisticada sutileza de uma prosa sedutora. Só o tempo fará justiça à sua dimensão como folclorista, ensaísta, contista e mestra da real sapiência de vida.

(Jorge Caldeira – Cadeira nº 18)
Além da pessoa excepcional, perdemos eventualmente um dos últimos elos com nossa ancestral memória oral. Guardarei dela as melhores lembranças, na forma de grandes histórias.

(Luiz Carlos Lisboa – Cadeira nº 6)
A casa de minha avó era em Taubaté, como fora a fazenda do meu avô que não cheguei a conhecer. Durante toda minha infância ia passar as férias ali. Assim, minha mitologia particular foi povoada da fala, dos costumes, das histórias e do povo bom do Vale do Paraíba. Quando li pela primeira vez Àgua Funda, de Ruth Guimarães, voltei àquele tempo que havia preservado na memória como um museu sagrado. Esse era poder de Ruth: falar do caipira e do Homem Eterno ao mesmo tempo. Na sua posse na Academia Paulista de Letras, enquanto ela era saudada e depois agradecia, minha cabeça estava na Taubaté da minha infância. Nunca pude agradecer bastante a Ruth por isso, ela que para nós partiu tão cedo.

(Mafra Carbonieri – Cadeira 26)
Só vim a conhecer pessoalmente Ruth Guimarães aqui na Academia. Como todos eu me encantava com a sua presença serena, seus óculos pareciam críticos, mas seus olhos eliminavam todas as asperezas do mundo. O primeiro texto que li de Ruth, quando eu era jovem, foi uma versão do francês da obra de Dostoievski, Diário de Um Escritor. Admirável o âmbito de interesses de nossa querida colega, desde que explorou, como Valdomiro Silveira, um tipo de linguagem regional. Deixará saudade. Mais do que esse sentimento, deixará um exemplo a ser recordado com respeito.

(Paulo Bomfim – Cadeira nº 35)
Ruth partiu ficando para sempre em nossos corações.
Sete décadas de amizade unem nossos caminhos.
"Antônio Triste" e "Agua Funda" nasceram juntos selando admiração e unindo sonhos.
Que as águas do Paraíba abençoem essa saudade.

(Paulo Nathanael – Cadeira nº 12)
A notícia da morte da Ruth foi um vendaval de tristeza que envolveu todos os seus amigos e abriu entre eles uma clareira que dificilmente um dia será preenchida. Tinha o nome de minha mãe e sentava-se ao meu lado, naquelas tardes de 5ª feira, na Academia Paulista de Letras, à mesa do lanche e do café. Sempre tranquila e com aquele sorriso dos que andam de bem com a vida, porque é a longa experiência de existir inteligentemente – tinha 94 anos – que faz os sábios, os santos e os bons. Lembra-me de quando morreu o confrade Odilon Nogueira de Matos, abrindo assim a vaga da cadeira 22 da Academia. Inscrevi-me à instância de amigos com assento naquela Casa e reunia condições de ser eleito. Eis que já na proximidade das eleições, soube que a Ruth também se inscrevera: amigo seu e leitor de todas as suas obras, conhecendo-a, como conheci, como Jornalista, romancista, autora de livros infantis e, principalmente, uma antropóloga que cultivou o folclore paulista e Valparaibano nas suas manifestações literárias, musicais, figureiras, poéticas, teatrais e, principalmente, documentais e testemunhais de uma cultura popular rica e imperdível, desisti de concorrer com ela e enviei ofício ao Presidente da Academia, retirando-me do pleito e augurando sucesso a essa inigualável personalidade, que, mais do que eu, merecia ter assento naquele seleto cenáculo. Foi eleita com muita justiça. Quanto a mim, tive nova oportunidade no ano seguinte e acabei eleito com sobra de votos, inclusive o seu.
Estará no céu, certamente, a encantar os anjos com seu imenso saber, sua simpatia e seu talento na criação poética, sempre atenta, como o fez em vida, para não trair sua simplicidade e nem a humildade, que sempre a distinguiu.

(Paulo Nogueira Neto – Cadeira nº 10)
A Acadêmica Ruth Guimarães era uma pessoa muito modesta e amiga, representando a cultura literária de algumas populações paulistas. Nunca ouvi dela qualquer critica agressiva. Era sempre amiga e cordial. Seu falecimento nos deixa triste.

(Raul Cutait – Cadeira 30)
Quando entrei para a Academia, a Ruth já a frequentava menos. Contudo, o que mais me impressionava era sua maneira suave de se relacionar. Só a via mais incisiva quando discutia os temas que a agradavam, em especial os relacionados com sua área de publicação.
Sua perda, mais uma vez, traz a dimensão de que a morte temporal é nossa parceira de vida; por sua vez, sua obra e sua figura confirmam que a viagem para a outra vida não nos elimina deste mundo.

(Renata Pallottini – Cadeira nº 20)
"Ruth Guimarães foi uma personalidade única, que uniu talento e capacidade de luta. Discreta, sem arroubos, fez o que só fazem os grandes escritores: afirmar-se, saindo do silêncio para a permanência eterna."