sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

As vacas ou a política

Ruth Guimarães
                                                                                       

O vale do Paraíba está novamente em fase de mudança total para um novo ciclo. Passamos depressa do velho pastoreio lerdo para as atividades dinâmicas da indústria. Até agora como exemplo só a minha terra, quase nos campos da Bocaina, não se planta, mas são mais de 400 fazendas as que a rodeiam. O que nos trará o futuro agora que vemos os filhos de fazendeiros avultarem na política deixando a agricultura e o pastoreio? E sem formação e elementos para a indústria?

E, com isto, os fazendeiros triturados nas engrenagens econômicas, entre a inflação e a transição, têm de sobra razão de queixa.
Vaca é um investimento precário. Custa caro, come muito, morre à toa. Seu tempo de produção é curto. Dura mais ou menos seis crias. Não sabe escolher caminho, nem comida. Não se desvia de buraco, nem de abismo. Fácil encontrar mortas aquelas preciosidades de custo muito, que, sem nenhuma atenção pelos gastos do dono, rolaram perambeira e estão dando banquete de graça aos urubus. Também é fácil encontrar vaca ervada, isto é, envenenada com erva-de-rato, rêmora e outras lucreciaborgices de que a despensa do mato valeparaibano é farto. O bicho vai andando a toa pelo campo, perde o caminho, pousa fora de casa, prá comer precisa chamar no berrante e no ocô! Ocô! Pra lamber o sal, precisa chamar, fica por lá. Sai da estrada, caminhão pega, policia multa o dono. Deita na linha da ferrovia, o trem pega, dá um trabalhão para tirar o corpo de lá.
Fazendeiro tem que estar ali, noite e dia, tomando conta. Quando a gente diz que “seo” fulano possui duzentas vacas, - engano! Duzentas vacas bem folgadas possuem o “seo” fulano, de criado as ordens delas. Almocinho no cocho, chamar pra jantar, banhinho de carrapaticida, de tempo em tempo, sal duas vezes na semana, berçários dos filhos, vacina, raspinha de fava-de-santo-inacio, tirar o leite em hora certa, senão é uma latomia dos pecados, berro pra mais de metro.
E tem muitas que são esganadas. Comem a ração no cocho e as das vizinhas. Comem esganada, a moda cachorro, engolem o ar junto com o alimento, vão estufando, caem prá lá, deu timpanite. Morrem na hora Veterinário não dá  jeito. E tempo de chamar? A gente mesmo dá. Pega uma faca de ponta e enfia no bucho de empanzinada. O ar escapa fuuuuuu, alivia A SUFOCAÇAO E O BICHO ESTÁ SALVO. O FURO NO BUCHO, AI O veterinário cura. Dá tempo. Ainda tem a tal da mamite, que é inflamação no úbere. Inutiliza a vaca, não dá mais leite. E tem doença que pega em gente: brucelose, aftosa. Vaca morre até de parto.
- Se o investimento é tão ruim assim, como ainda há gente nesse negocio do leite?
Depoimento do pequeno produtor
- O leitinho sempre dá um pouco
Depoimento do produtor mal – sucedido:
- Com o preço aviltado não dá pra ir.
Depoimento da mulher do produtor mal-sucedido:
- É. Mas todo dinheirinho que ele arranja é pra comprar vaca.
- Não seria melhor vender as vacas e ir cuidar de outra coisa?
Seguimento das declarações do produtor mal-sucedido:
- Cuidar de que? Eu só sei cuidar de vaca...
Depoimento do vizinho (um produtor bem-sucedido):
- Se ele soubesse cuidar de vaca, não estava nesse misere.
- Se o senhor vendesse parte da terra?
- Não posso. Terras que foram do meu pai, do meu avô. Eu chego naquele altinho, aquele ali, as terras estão rindo pra mim.

(É isso ai)

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Os Filhos do Medo

O medo e a religião formam as bases para a compreensão dos aspectos culturais. A religião católica como um complexo cultural que desde os tempos primórdios da ocupação do território desempenha papel determinante na organização social e no cotidiano das pessoas. Ela oferece uma explicação cósmica do mundo, oferece caminhos e atua como elemento modelador de atitudes. Os causos, os contos, as lendas carregam este sentimento, expondo os medos, as incertezas que aumentam diante do desconhecido. As orações e práticas religiosos trazem alívio às dores, proteção e esperança aos devotos.

O medo, como apresenta Jean Delumeau em sua obra História do Medo no Ocidente, é um sentimento natural que nos acompanha por toda a nossa existência, e não seria possível pensar a condição humana sem estes pares primordiais: medo e esperança. A força do medo influencia sem dúvida alguma os comportamentos e práticas sociais de indivíduos e de grupos.

A escritora Ruth Guimarães vai mais adiante ao afirmar: o nosso caboclo é filho do medo. Sua afirmação foi retratada com maestria em sua famosa obra literária “Os Filhos do Medo”.

Segundo ela, foi o medo que criou as sociedades primitivas. E continuava a exercer seu fascínio no mundo rural, ainda não tocado pela energia elétrica, das noites de breu quando a lua se escondia por detrás das nuvens, ou de lua cheia das sextas-feiras.

Como escreveu: “o nosso caboclo guardou muito do culto lunar. Relaciona a lua, e muitas vezes com razão, a todas as fases da vida e a todos os acontecimentos. Não corta sapé na lua nova.”(Guimarães, 1950, p.25).

A escritora Ruth Guimarães registra vários “causos” ou contos do Saci pelo Vale do Paraíba, entre os anos de 1930 a 1940, no seu precioso livro “Os Filhos do Medo”:

“Diz-se que, quando está ventando muito,
sai vira-virando num pé só. Já viram como o vento
parece assobiar nos redemoinhos? Pois é o saci
que assobia. Diz-se que o saci senta no cabo das
caçarolas, quando se está arrebentando pipoca e
reza. Todos os grãos de milho rezados, em vez de
pipoca viram piruá. Também reza os ovos nos
ninhos, quando as galinhas estão no choco. Os
ovos goram. Esconde as coisas e ri, quando a
pessoa que as perdeu diz nomes feios.
... O saci faz a gente tropeçar para dizer palavrões.
Dá nó no rabo dos cavalos. Pede fogo aos
viadantes. Esturra o feijão. Chupa o sangue dos animais. Entorna o
leite no fogo. Estraga as plantações. Faz queimar os balões. Pula na
garupa dos cavalos, desassossegando-os. Pega qualquer alimária à
noite, trança-lhe a crina, para se segurar bem, e sai em cima dela,
agachado, a galope, pelos campos.” (Guimarães, 1950, p.222)

por Francisco Sodero

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Catedral Submersa

De dia não se vê. As águas tremem tanto, arrepiadas pelo vento e o sol é tão fino e coruscante!
Os olhos estão demasiadamente cheios de claridade e das cores, de sol e de cintilações. É muita a luz. Não dá para ver. Depois, há muito que contemplar, longe e perto. Como tinta derramada, pelo pasto, se estende o verde-abundante do capim-gordura, capim membeca, capim melado, onde engordam e se arredondam, com o pelo lustroso, as vacas do Joaquim Pedro. Temos que olhar para os ingazeiros que se curvam gentis, cumprimentando. E temos que olhar para os chorões que num lento gesto de mágoa lamentam não sei que desditas da negra sorte.
Pela manhã passa o bando de pássaros azuis das escolas. Andorinhas do mar, em azul e branco, muito gárrulas e muito chilreantes. As marrequinhas do banhado erguem voo aos bandos, ruflando as asas, desaforadas: Qual! Qual! Não dá para reparar no espelho da água tranquila.
Botelho Netto
Passam os leiteiros em carroças, sacolejando as latas. E os buracos de cangalhas escuras, e orelhas em pé. E boiadas em atropelo, animais esbarrando uns nos outros, sujos, cascos barrentos, orelhas pendentes. E o boiadeiro com a boca no berrante, arrancando tão sentida queixa! A poeira se ergue, redemoinha, o vento a leva. Quem vai reparar no espelho da água tranquila?
À tarde o passo é mais lento, o ar mais sereno, as cintilações se apagaram num tom neutro, entre cinza e lilás, e as águas se alisam, múrmuras. Os lambaris feitos de prata e sol se esconderam no fundo. Tardinha bem tardezinha de mugidos longos nas pradarias, os passos na ponte, tem um sentido de retorno e um jeito de fadiga. Igreja, não é nenhuma, porém a matriz de Santo Antonio, muito lírico, toda clara e alongada, de pontas agudas, em estilo romano, está sobre a colina como uma grande garça prestes a desferir o voo. Começam a se delinear na água quieta os seus contornos. Ainda muito esfumados, muito apagados. Quando o martim-pescador roça na água (que reflete um sol de sangue) a ponta reta da asa, ela estremece um pouco. Assim como estremece quando o pescador atrasado para o jantar joga pela última vez a linha. É à noitinha que percebemos afinal que há uma catedral submersa. Quando se acendem as luzes. Dentro da água negra, mais espessa não sei como, calada que impressiona, a igreja surge traçada em pontas de luz. Nem um brilho, nem uma asa, nem um murmúrio. Amarelo sobre o negro, a catedral no fundo d’água mais real e mais bela que a que vemos todo o dia, todos os dias, o ano inteiro, garça branca na colina. Ah! É mister que a noite venha, que venha a treva, para vermos. Submersa na noite da ausência a catedral quão bela se destaca, só, serena, com um brilho lustral de água ou de lágrimas.

(Nem uma cintilação, nem uma asa, nem um murmúrio...)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Itinerário

Pelos corredores do tempo
Eu fui,
Como se soubesse o caminho.
Como se distinguisse o caminho.
Como se houvesse um caminho.

E, sem saber de mim,
Continuamente
Retorno ao ponto de partida.

Sentir-me.
Descer ao fundo abismo
Para trazer-me à luz cada dia.

Seguir na esteira do sol,
Que todos os dias morre
E todos os dias renasce.

Por que vais tão depressa
Se quase tudo o que te cerca é belo
E se trazes nos olhos a distância,
Nos ossos do cansaço?

Por que vais tão depressa,
Se de tão longe vens
Que perdeste a memória do principio
E vais para tão longe
Que nem suspeitas
Quando e como acontecerá o teu fim?

Este minuto
Pelo menos tem certeza
Que existe.

Tendo os olhos molhados,
A estendê-los,
Mas há entusiasmos neste gesto
E o meu coração onde demoras
É quente como um ninho.

Não sei se esse estendal de luz e sonho
Pode tornar melhor tua jornada.
Mas pisa-o.
Foi para que caminhasses na beleza
Que um céu eu quis tornar
O teu caminho.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Diálogo


Era dia de Finados, isto é, dia de festas dos vivos na Casa dos Mortos. O piquenique no cemitério tinha começado há muito, conforme indicavam os vários carrinhos de pipoca, amendoim torrado, arroz japonês, cachorro quente, doce de leite e cocada, na porta do Campo-Santo, e os papéis engordurados de sanduíche esparramados pelo chão; e os namorados abraçados; e outros indícios igualmente confortantes. O comércio de artigos pertinentes corria paralelo: flores, muitas! Lindas! Um toque de poesia no banalismo das visitas convencionais. Ramos cheirosos arrumados de alecrim, de manjericão. Bambuzinhos trêmulos. Valdemar Feio que, como nome está dizendo, é inteligente e vivo como o quê, postou-se junto dos degraus da escada, à esquerda do portão, onde está escrito em letras enormes: A MORTE É O COMEÇO DA VIDA ETERNA (como se isso fosse um grande consolo).
Vardemá Feio iniciou assim o pregão da sua mercadoria:
- Velas! Velas! Velas a cem! Vai a vela! Ver para crer. Ninguém vende mais barato. É aqui, não lá!...
Fazia umas piruetas e recomeçava o clamoroso pregão:
- É aqui, não é lá! Vela a cem!...
Do outro lado do portão, ou seja, à direita, estava um velho robusto, alto, cor-de-tijolo no rosto, branquinho de cabelos.]
- Conhece? – perguntaram-me. É o velho Morgado.
Velho Morgado tinha na frente um tabuleiro com maços de velas e limitava-se a entoar uma espécie de melopéia:
- Vela a cinquenta! Vela a cinquenta!...
Gente parava meio admirada, um toque de indecisão, ria-se e ia em alegre procissão comprar velas do que gritava menos, mas vendia pela metade do preço.
O rapaz, a berrar destemperadamente, numa algazarra formidável, sem vender coisa alguma, não via? Não ouvia? Era até engraçado. Até que um amigo não se conteve:
- Mas, ô Vardemá, você é burro, hein?!
- Ué! Eu? Burro? Por quê?
- Pois você não está vendo que, com essa propaganda toda, chama a freguesia é pr’aquele que está do lado de lá? Ele vende tudo e você... E você, homem?


Valdemar envesgou um olhar para o lado, olhar displicente de “nem te ligo”. E, num tom de tirada à parte, dessas de teatro de bairro:
- É q’aquele que você está vendo ali é meu pai.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Sala de Leitura

A escritora #Ruth Guimarães Botelho, natural de Cachoeira Paulista, foi homenageada na E.E. Severino Moreira Barbosa, com a #Inauguração da Sala de Leitura que aconteceu no dia 23 de agosto. NOMEADA #SALA DE LEITURA Ruth Guimarães Botelho.
BIOGRAFIA.
Nascida em Cachoeira Paulista e morta em 2014, a escritora foi aluna de Mário de Andrade e amiga de outros grandes escritores nacionais, como Guimarães Rosa, Jorge Amado, Antonio Candido.








FLIP 2017

Que a longa espera tenha sido compensatória, minha querida...